terça-feira, 26 de abril de 2016
Sem você...
Sem você bem que sou lago, montanha.
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumenta o preço.
Ana Cristina Cesar
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumenta o preço.
Ana Cristina Cesar
O desaparecido
Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de
antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e
então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e
penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e
limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de
mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
Rubem Braga
Do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 112, extraímos o texto acima.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Geraldo Azevedo no Museu da Imagem e do Som
Quarta-feira passada, passei a tarde no Museu da Imagem e do Som
(MIS), no Rio de Janeiro, participando do depoimento de Geraldo Azevedo para o
projeto Depoimentos Para a Posteridade. A sessão de cerca de quatro
horas e meia de conversa, dirigida pelo jornalista João Pimentel, teve como
entrevistadores eu, Eliana Pittman, Neila Tavares e Carlos Morel.
Acompanho o trabalho de Geraldo há décadas. Ele é de uma
geração de compositores e cantores um degrau acima da minha: Alceu Valença, Zé
Ramalho, Elba Ramalho, Fagner, Ednardo, Belchior etc. Artistas nordestinos que
gravaram seus primeiros discos nos anos 1970. Depois deles veio uma segunda
leva de “paraíbas”, incluindo eu, Ivan Santos, Lenine, Fuba, Lula Queiroga,
Tadeu Mathias, Alex Madureira e muitos outros.
É sempre bom ouvir a narração da carreira de alguém por
ordem cronológica, ver a sucessão de pequenos fatos que vão, sem que a gente
perceba, nos conduzindo na direção da vida artística. Geraldo nasceu num sítio
em Jatobá, nas vizinhanças de Petrolina (PE). Antigamente, era distante; hoje,
o local foi engolido pela cidade, que cresceu muito mais do que sua vizinha
Juazeiro (BA).
Geraldo conta que na infância a escola ficava a alguns
quilômetros de distância, e ele ia montado num jegue, que já sabia o caminho:
parava exatamente no local da professora. Na volta, no sol a pino, o calor era
tanto que ele adormecia agarrado ao burro em movimento (como o vaqueiro do
conto “O Burrinho Pedrês” de Guimarães Rosa), e o burro voltava para casa sem
precisar de guia. A mãe de Geraldo, dona Nenzinha, alfabetizou todos os filhos,
e também o marido, já adulto.
Jatobá ficava pertinho do rio São Francisco. Às vezes, nas
cheias do rio, as árvores onde os meninos brincavam ficavam só com a copa do
lado de fora, e o pai advertia: “Depois que baixar, não subam nessas árvores,
está cheio de cobra lá em cima.” As cobras subiam para se proteger.
Ele lembra uma época, já rapaz, quando a equipe de Carlos
Coimbra andou por lá filmando Lampião, Rei do Cangaço, com Vanja Orico e
Geraldo del Rey. Os dois Geraldos ficaram amigos e tocavam violão juntos. O
método preferido naquela época era um daqueles métodos de violão “pé-duro”, de
acordes “quadrados”, o Método Bandeirantes. Na mesma época, Geraldo
conheceu João Gilberto, que tinha ido visitar o pai em Juazeiro.
Geraldo veio ao Rio trazido por Eliana Pittman, que o tinha
visto tocar violão nos bares do Recife. Era jovem, e de repente viu-se tocando
com pessoas como Antonio Adolfo e Erlon Chaves. “O violão não tinha captador,
era com microfone,” lembra ele. “Quando eu sabia a música, aproximava o violão
do microfone. Quando não sabia direito os acordes, afastava”.
Ele fala também dos seus primeiros contatos com outros
artistas, inclusive Geraldo Vandré. Quando Vandré se escondeu por causa do
golpe de 1968, os dois fizeram a “Canção da Despedida”, que segundo Geraldo foi
composta nos lugares onde ele estava escondido: na casa de D. Aracy Moebius
(esposa de Guimarães Rosa) e depois no sítio da modelo e atriz Marisa Urban.
Ele fez um longo depoimento sobre as torturas que sofreu
depois que foi preso pela ditadura, porque tinha amigos envolvidos com
organizações clandestinas e colaborava com desenhos em alguns panfletos. E
ironiza o regime. Quando ele e Alceu Valença gravaram seu primeiro disco
juntos, em 1972, o então ministro Jarbas Passarinho apareceu na imprensa
exibindo o disco, o primeiro disco quadrafônico da música brasileira. Depois,
quando Ernesto Geisel visitou a Alemanha para discutir energia nuclear, no
pacote de presentes que levou para as autoridade estava outro disco do ex-preso
Geraldo.
E por aí vai. A carreira de Geraldo me parece uma carreira
única na sua geração de compositores nordestinos. Não conheço nenhum outro,
naquela faixa, que domine o violão como ele, que tenha sua inventividade de
melodia e harmonização. Cria da Bossa Nova na adolescência, ele evoluiu para
outros estilos na idade madura, e assimilou influências da música africana,
latino-americana, o rock, o tropicalismo e o mais que se seguiu.
A primeira vez que assisti um show de Geraldo foi
muitos anos atrás, quando eu era um cineclubista cabeludo em Salvador, e fui
vê-lo no Teatro Vila Velha, um show voz e violão. Na hora do bis, ele pediu à
platéia que sugerisse uma música. Eu gritei: “Cravo Vermelho!” E fiquei super orgulhoso quando ele (que nem
sabia da minha existência, então!) tocou. É aquela música linda que começa: “Eu
sou daqui – mas vim de longe...”
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo domingo, 24 de abril de 2016
Os parceiros
Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.
Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste...
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.
Insiste em quê?Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro...eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se
numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
Como também disfarce é a minha vida!
Mário Quintana
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.
Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste...
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.
Insiste em quê?Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro...eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se
numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
Como também disfarce é a minha vida!
Mário Quintana
Diante da lei
Diante
da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede
para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a
entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode
entrar mais tarde.
- É possível - diz o porteiro - mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta.
Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.
Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
- O que é que você ainda quer saber? pergunta o porteiro. Você é insaciável.
- Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.
- É possível - diz o porteiro - mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta.
Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.
Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
- O que é que você ainda quer saber? pergunta o porteiro. Você é insaciável.
- Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.
O escritor tcheco Franz Kafka viveu entre 1883 e 1924); o conto “Diante da Lei” é de 1919. Do livro Um Médico Rural (Contos). São Paulo, Editora Brasiliense, 1991
sábado, 23 de abril de 2016
Encontrado corpo de menino que estava desaparecido há quatro dias no Sertão da PB
Buscas contaram com a ação de Policiais militares, civis e do Corpo de Bombeiros, além de moradores cães farejadores da Capital
O corpo de Erick Gabriel Muniz de Sousa, de 11 anos, que estava
desaparecido desde a segunda-feira (18), foi encontrado na tarde desta
sexta-feira (22). A confirmação da morte foi feita pelo capitão
Batista, comandante da Polícia Militar de Pombal, no Sertão da Paraíba, a
371 km de João Pessoa. O cadáver foi encontrado por profissionais
do Corpo de Bombeiros em um matagal próximo ao local onde a criança
havia sido vista pela última vez, perto do parque de vaquejada da
cidade. Confira o lugar na fotos abaixo:
Policiais militares, civis e do Corpo de Bombeiros da região participaram das buscas.
Nessa quinta-feira (21), as atividades contaram ainda com apoio de cães
farejadores da Capital. Moradores da região também ajudaram nos
trabalhos.
Em mensagens compartilhadas nas redes sociais, a família informou as roupas que a criança vestia no dia em que desapareceu. O menino seria autista e precisaria de medicamentos controlados.
A polícia informou que isolou a área onde o corpo foi achado e que os
familiares estavam se dirigindo ao local para formalizar a
identificação. A causa da morte da criança não foi definida e uma
perícia seria para determiná-la com precisão.
Tvcz
Shakespeare, um espanto de 400 anos
Meus olhos vêem melhor se os vou fechando.
Viram coisas de dia e foi em vão,
mas quando durmo, em sonhos te fitando,
são escura luz que luz na escuridão.
Tu cuja sombra faz a sombra clara,
como em forma de sombras assombravas
ledo o claro dia em luz mais rara,
se em sombra a olhos sem visão brilhavas!
Que benção a meus olhos fora feita
vendo-te à viva luz do dia bem,
se a tua sombra em trevas imperfeita
a olhos sem visão no sono vem
Viram coisas de dia e foi em vão,
mas quando durmo, em sonhos te fitando,
são escura luz que luz na escuridão.
Tu cuja sombra faz a sombra clara,
como em forma de sombras assombravas
ledo o claro dia em luz mais rara,
se em sombra a olhos sem visão brilhavas!
Que benção a meus olhos fora feita
vendo-te à viva luz do dia bem,
se a tua sombra em trevas imperfeita
a olhos sem visão no sono vem
Vejo os dias quais noites não te vendo,
e as noites dias claros sonhos tendo.
e as noites dias claros sonhos tendo.
William Shakespeare, in "Sonetos (43)"
Inglaterra
23 Abr 1564 // 23 Abr 1616
Dramaturgo/Poeta/Ator/Compositor
23 Abr 1564 // 23 Abr 1616
Dramaturgo/Poeta/Ator/Compositor
Coisa de moleques
Para falar sobre trote "produzido", é preciso pedir licença a Ícaro de
Aguiar, talvez o maior trotista que o mundo já viu. Conseguiu passar trote até em
membros da família imperial brasileira, como d. Pedro e d. João, que, a exemplo dele,
moravam em Petrópolis. Ícaro lia a coluna social dos jornais para ficar informado dos
acontecimentos sociais. Ia, então, para o telefone e marcava, desmarcava, transferia e
adiava jantares, festas, recepções, vernissages, o diabo. Era a maior confusão em
Petrópolis.
Uma vez, descobriu que um comitê de padres, em visita ao Rio de Janeiro, queria conhecer Petrópolis. Descobriu o telefone da diocese em que os padres estavam hospedados e os convidou, em nome de d. Pedro, a conhecer o palácio imperial no domingo seguinte. Em seguida, telefonou para d. Pedro, dizendo-se porta-voz da diocese, e pedindo uma visita ao palácio de Petrópolis, um palácio, aliás, bem engraçadinho. D. Pedro ficou puto, ninguém entendia nada, pois um havia convidado o outro e ninguém havia, efetivamente, convidado ninguém. Fomos com Ícaro para a porta do palácio, especialmente para curtir a chegada dos padres. Foi aquele mal-estar. Impagável!
No que diz respeito particularmente a mim, participei da produção de um trote que é candidato forte ao título de maior de todos os tempos. Ibrahim Sued anunciou, com grande pompa, o casamento de Guido Maciel, dono de um dos mais ricos cartórios do Rio de Janeiro, sócio de Márcio Braga — que, diga-se de passagem, nunca foi bobo — com uma moça que havia sido miss e capa de tudo quanto era revista e se chamava Ângela Catrambi, hoje senhora de um grande médico, dr. Álvaro Pinheiro Guimarães. Ia ser um dos grandes acontecimentos sociais do ano, com um coquetel ao ar livre, nos gramados da casa, para quinhentas pessoas, com um bufê enorme e champanhe francês rolando para todo mundo. A casa era uma mansão cinematográfica, ao lado do Itanhangá Golf Club, e todos os grã-finos da cidade foram convidados. Parecia festa de paulista, embora fosse no Rio.
— Vamos fazer uma produção — sugeri a Manuel Gusmão e à mulher dele, a Cida, que era craque em passar trote e, animada, assumiu a execução da operação.
Lembrei que a Eliana Pittman era muito vaidosa. A mãe dela, a Ofélia, mais vaidosa ainda; portanto, seria fácil fazê-las aparecer no casamento sem convite. Cida ligou para a casa delas, Ofélia atendeu, e explicou-se que o Guido Maciel era um grande admirador da cantora Eliana Pittman, um fã, e gostaria que ela fizesse um show no casamento, uma coisa diferente. Imaginem: casamento com show! A Ofélia não era boba, bem que desconfiou, mas tinha lido a notícia no jornal e ficou logo de olho grande... coluna social era com ela mesma. Pediu um tempo para dar a resposta. Ficamos, então de ligar depois, para confirmar ou não.
Em seguida, Cida ligou para a casa do Guido Maciel e mandou chamar a mãe de Ângela Catrambi, uma típica mãe de miss que, mais feliz do que pinto no lixo, estava eufórica com o casamento da filha com um homem tão rico e poderoso. Iria descontar uma promissória.
— A senhora é a mãe da Ângela? Minha filha, Eliana Pittman, gostaria de, humildemente, prestar uma homenagem aos noivos, dar um abraço na Ângela — explicou Cida, fazendo-se passar por Ofélia.
A orgulhosa senhora conhecia Eliana de nome, achou a oferta muito natural e aceitou logo.
— Que beleza a Eliana Pittman cantando no casamento! Podem vir.
Em seguida, avisou à filha, que, numa euforia total, também gostou da ideia.
Era um duelo de titãs. Duas mães de miss no mesmo jogo, só podia dar empate. Cida ligou novamente para Ofélia, que continuou a colocar obstáculos:
— Não sei, assim de repente... Temos de localizar os músicos, o problema do cachê...
— Por favor, não me fale em cachê — ofendeu-se Cida, no papel de mãe da noiva. — Cachê não tem problema. Que tal trinta mil?
Era uma nota preta. Os olhos de Ofélia devem ter revirado dentro das órbitas. Ir a uma festança dessas e ainda por cima ganhar essa nota! Era demais. Topou voando.
— E com que roupa a Eliana deve ir? — quis saber Ofélia.
— Naturalmente, uma roupa bem chamativa, bem Broadway.
— Tudo bem. Eliana gosta de se apresentar assim.
— Então estamos combinadas.
Dá pra imaginar o espanto na entrada triunfal de Eliana, toda emperetecada, e, depois, a confusão na hora de receber o cachê?
Simplesmente inenarrável, caro leitor.
Uma vez, descobriu que um comitê de padres, em visita ao Rio de Janeiro, queria conhecer Petrópolis. Descobriu o telefone da diocese em que os padres estavam hospedados e os convidou, em nome de d. Pedro, a conhecer o palácio imperial no domingo seguinte. Em seguida, telefonou para d. Pedro, dizendo-se porta-voz da diocese, e pedindo uma visita ao palácio de Petrópolis, um palácio, aliás, bem engraçadinho. D. Pedro ficou puto, ninguém entendia nada, pois um havia convidado o outro e ninguém havia, efetivamente, convidado ninguém. Fomos com Ícaro para a porta do palácio, especialmente para curtir a chegada dos padres. Foi aquele mal-estar. Impagável!
No que diz respeito particularmente a mim, participei da produção de um trote que é candidato forte ao título de maior de todos os tempos. Ibrahim Sued anunciou, com grande pompa, o casamento de Guido Maciel, dono de um dos mais ricos cartórios do Rio de Janeiro, sócio de Márcio Braga — que, diga-se de passagem, nunca foi bobo — com uma moça que havia sido miss e capa de tudo quanto era revista e se chamava Ângela Catrambi, hoje senhora de um grande médico, dr. Álvaro Pinheiro Guimarães. Ia ser um dos grandes acontecimentos sociais do ano, com um coquetel ao ar livre, nos gramados da casa, para quinhentas pessoas, com um bufê enorme e champanhe francês rolando para todo mundo. A casa era uma mansão cinematográfica, ao lado do Itanhangá Golf Club, e todos os grã-finos da cidade foram convidados. Parecia festa de paulista, embora fosse no Rio.
— Vamos fazer uma produção — sugeri a Manuel Gusmão e à mulher dele, a Cida, que era craque em passar trote e, animada, assumiu a execução da operação.
Lembrei que a Eliana Pittman era muito vaidosa. A mãe dela, a Ofélia, mais vaidosa ainda; portanto, seria fácil fazê-las aparecer no casamento sem convite. Cida ligou para a casa delas, Ofélia atendeu, e explicou-se que o Guido Maciel era um grande admirador da cantora Eliana Pittman, um fã, e gostaria que ela fizesse um show no casamento, uma coisa diferente. Imaginem: casamento com show! A Ofélia não era boba, bem que desconfiou, mas tinha lido a notícia no jornal e ficou logo de olho grande... coluna social era com ela mesma. Pediu um tempo para dar a resposta. Ficamos, então de ligar depois, para confirmar ou não.
Em seguida, Cida ligou para a casa do Guido Maciel e mandou chamar a mãe de Ângela Catrambi, uma típica mãe de miss que, mais feliz do que pinto no lixo, estava eufórica com o casamento da filha com um homem tão rico e poderoso. Iria descontar uma promissória.
— A senhora é a mãe da Ângela? Minha filha, Eliana Pittman, gostaria de, humildemente, prestar uma homenagem aos noivos, dar um abraço na Ângela — explicou Cida, fazendo-se passar por Ofélia.
A orgulhosa senhora conhecia Eliana de nome, achou a oferta muito natural e aceitou logo.
— Que beleza a Eliana Pittman cantando no casamento! Podem vir.
Em seguida, avisou à filha, que, numa euforia total, também gostou da ideia.
Era um duelo de titãs. Duas mães de miss no mesmo jogo, só podia dar empate. Cida ligou novamente para Ofélia, que continuou a colocar obstáculos:
— Não sei, assim de repente... Temos de localizar os músicos, o problema do cachê...
— Por favor, não me fale em cachê — ofendeu-se Cida, no papel de mãe da noiva. — Cachê não tem problema. Que tal trinta mil?
Era uma nota preta. Os olhos de Ofélia devem ter revirado dentro das órbitas. Ir a uma festança dessas e ainda por cima ganhar essa nota! Era demais. Topou voando.
— E com que roupa a Eliana deve ir? — quis saber Ofélia.
— Naturalmente, uma roupa bem chamativa, bem Broadway.
— Tudo bem. Eliana gosta de se apresentar assim.
— Então estamos combinadas.
Dá pra imaginar o espanto na entrada triunfal de Eliana, toda emperetecada, e, depois, a confusão na hora de receber o cachê?
Simplesmente inenarrável, caro leitor.
Ronaldo Fernando Esquerdo e Bôscoli
Balanço
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que
proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não
falarei do desamparo que finamente aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento
peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo,
sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que
nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de
abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão 0 prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria. Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão 0 prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria. Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Otto Lara Resende
Enxergue o valor dos outros...
Era uma vez uma rosa muito bonita, que
se sentia envaidecida ao saber que era a mais linda do jardim. Mas
começou a perceber que as pessoas somente a observavam de longe. Acabou
se dando conta de que, ao seu lado, sempre havia um sapo e por essa
razão ninguém se aproximava.
Indignada diante da descoberta, ordenou ao sapo que
fosse embora. O sapo, muito humildemente, disse: está bem, se é assim
que você quer. Algum tempo depois o sapo passou por onde estava a rosa,
e se surpreendeu ao vê-la acabada, sem folhas nem pétalas.
Penalizado, disse: que coisa horrível, o que aconteceu com você?
A rosa respondeu: é que, desde que você foi embora, as formigas me comeram dia a dia, e agora nunca voltarei a ser o que era.
O sapo respondeu: quando eu estava por aqui, comia todas as formigas que se aproximavam de ti. Por isso é que eras a mais bonita do jardim...
Muitas vezes desvalorizamos os outros por crermos que
somos “superiores” a eles, mais "bonitos", de mais valor, ou que eles
não nos servem para nada.
Deus não fez ninguém para "sobrar" neste mundo. Todos
temos algo a aprender ou a ensinar, e ninguém deve desvalorizar
ninguém. Pode ser que uma destas pessoas, a quem não damos valor, nos
faça um bem tão grande, que nem mesmo nós percebemos.
Prof. Menegatti
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Uma história de amor sem fim
O
major Feliciano Florêncio foi acordado do seu sono de fim de tarde
pela presença forte de uma mulher lindíssima a convidá-lo a um passeio
por um caminho cheio de verde e de cantar de passarinhos.
Ele a reconheceu.
-Úrsula!
Fazia
mais de 80 anos que a vira pela primeira e única vez. Ela não mudara,
continuava tão linda quanto naquela fotografia emoldurada que o vendedor
de retratos lhe ofereceu numa manhã de feira livre.
Jamais a esqueceu.
Pulando
da cadeira de balanço, saiu a caminhar com passos trópegos para onde
ela estava a lhe acenar. Andou, andou, mas não a alcançou. A bela moça
sumiu sem dar adeus.
Duas
lágrimas de saudade caíram dos olhos cansados do major. Era bom demais
para ser verdade. E sentiu vontade de morrer ali mesmo. Morrer para
encontrar a mulher que lhe roubou a alma e o coração e que jamais foi
sua de verdade.
Por orgulho besta a recusou. Em nome de uma moral idiota a perdeu.
Fazia 80 anos e ainda lembrava como se fosse agora.
Viu
a fotografia, não despregou os olhos dela. Pagou o que foi pedido, com a
condição do vendedor lhe dizer quem era a moça e onde morava.
-Mora no Riacho do Navio!
Feliciano
aprontou a montaria, vestiu a melhor roupa e foi ao endereço indicado.
Dois dias de viagem, de pergunta aqui, pergunta ali, até dar no lugar
onde ela morava. Foi recebido pelo pai e não lhe fez segredo: queria
casar com sua filha.
O
balde d`água gelado foi jogado sobre sua cabeça. Ela estava prometida a
um primo. Mesmo assim pediu para conhecê-la. Apresentaram-se: -Sou
Feliciano! -Sou Ursula!
E ficaram nisso, ele lamentando ter chegado tarde, ela lamentando ter noivado cedo.
Ainda assim, seis meses depois chegou às suas mãos a carta apaixonada:
-Se me quiser, largo tudo e fujo para casar com você!
E a resposta curta e seca:
-Se a senhorita é capaz de fazer uma desfeita dessas com seu pai, não tem condições de ser a mãe dos meus filhos”.
Decisão
besta. Com o coração sangrando, casou com uma prima. A viuvez o fez
casar com a irmã da falecida. Mas Úrsula continuou a povoar seus sonhos.
Veio
a guerra de 30 e com a guerra, as humilhações, as prisões, a filha
sendo transportada em carroceria de caminhão pela Polícia, mas mesmo nos
dias de dores e raivas, Úrsula era lembrada como a doce dádiva que lhe
apareceu na vida.
E
agora o velho major olhava o horizonte, com as lágrimas descendo pelos
olhos, tentando ver de novo a morena que o chamou para, finalmente,
seguirem juntos por esse caminho cheio de verde e de passarinhos
cantando.
O velho major desejou morrer. Se a morte lhe trouxesse Úrsula, até que valeria a pena.
Tião Lucena
Você precisa ingressar em uma avenida movimentada na hora do rush, está
com o carro apontado, pisca ligado, esperando a gentileza de um outro
motorista. O tempo que você vai levar para conseguir sua chance depende,
basicamente, do seu carro.
Sim, a gentileza é seletiva.
Caso esteja "pilotando" um Mercedes, a generosidade não tardará. Sinais
de luz, dedinhos de positivo, sorrisos cúmplices. Se o seu carro for um
Chevette velho, tenha paciência, olhares esquivos não perceberão seus apelos.
Agora, se você estiver dirigindo um táxi. Esqueça, meu filho. Nem a figa pendurada em seu retrovisor vai lhe ajudar nessa.
Mauro Castro é escritor e taxista
quinta-feira, 21 de abril de 2016
O homem, a luta e a eternidade
Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
Murilo Monteiro Mendes
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
Murilo Monteiro Mendes
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