quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Professor é preso por convencer aluna a ficar nua para cantar melhor
O professor de música Kevin Gausepohl acabou preso. Tudo porque o americano de 37 anos convenceu uma aluna de 17 anos a ficar nua para que ela pudesse alcançar notas consideradas mais difíceis durante a aula de canto. Kevin também sugeriu que a jovem realizasse atos sexuais com ele na escola de Tacoma (estado de Washington, EUA).
Kevin, que é líder de orações da igreja Blaine Memorial United Methodist, teria dito à aluna estar realizando um estudo sobre como a excitação sexual afeta o canto. A jovem aceitou tirar a roupa e se masturbar diante do "mestre". De acordo com o "Daily Mail", a aluna teria dito que as sugestões de Kevin deram resultado positivo.
Outros alunos disseram à polícia que o professor também fizera as mesmas sugestões a eles. Mas todos se recusaram a ir adiante no "projeto musical naturista".
Kevin pediu demissão e garantiu não ter feito nada errado. Ele enfrentará a Justiça em breve.
Deu em O Globo
A idade de ser feliz
Existe somente uma idade para a gente ser feliz,somente uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo novo, de novo e de novo, e quantas vezes for preciso.
Esta idade tão fugaz na vida da gente chama-se presente e tem a duração do instante que passa.
Mário Quintana
Se eu Fosse um Padre
Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!
Mário Quintana
A arte de espremer cravos da pessoa amada - II
Retomo alguma esperança na humanidade.
A primeira manifestação amorosa que testemunhei no ano novo foi uma mulher tirando cravos do seu homem.
No caminho entre a praia de Carneiros e o Recife. Precisamente no bar do Marcão, Maracaípe, parada do almoço, com rock progressivo na sonoridade ambiente.
O sol por testemunha, velho Hemingway, acredite: naquela cena havia a reinvenção do macho e da fêmea.
Ela resgatava a grande arte de tirar cravos na napa do seu mancebo. Uma arte que anda um tanto quanto obsoleta, uma arte quase morta.
O velho Hemingway gostava tanto de ter o rosto mexido pela costela amada que retribuía o ato, como vemos ai na foto com a sua bela Mary.
Retomo a esperança na humanidade.
O melhor é que era uma gazela moderna. Nem combinava com aquele viejo e cansado rock progressivo que saía do violão do moço.
Moderníssima protagonista de uma cena que parecia tão demodê, tão das antigas.
Preferimos, aqui neste panfleto inaugural de 2012, incentivar a prática de espremer cravos e espinhas a testemunhar o horror e o triunfo da invasão dos homens nos salões de beleza.
Na manifestação feminina de Maracaípe vi Deus refazer o macho-jurubeba a partir da costela das Evas futuras.
Retomo alguma esperança na humanidade.
A derradeira vez que havia visto uma mulher fazendo a revolução dos cravos com os indicadores foi numa parada de ônibus na avenida Sapopemba, ZL de SP, ano 2009.
Suburbanos corações espremidos.
A parada de ônibus é o sítio perfeito para tal gesto. Um olho no destino do coletivo e outro na cândida face de um marido resignado como um Cristo de Semana Santa.
Não tem a menor graça, nesse mundo tão imbecilmente profissionalizado, a limpeza de pele dos salões de beleza. Seu rosto ali entregue a amistosas funcionárias sem nenhuma intimidade, mulheres que nunca ouviram os nossos roncos e gemidos de noite na cama.
É o tipo de serviço que exige intimidade. Tal arte carece de pelo menos um mês de namoro ou acasalamento. Não é tarefa para qualquer uma.
É tão delicado quanto tirar a roupa pela primeira vez na frente de outrem - e, pensando bem, uma reveladora prova de devoção.
A menos que seja uma perversa incatalogável, uma gazela não escarafuncha nossas crateras à toa. Quando ela posiciona aqueles dois indicadores sobre a bíblica face parece aceitar a convivência harmoniosa até com as nossas mais indignas impurezas.
Você, amiga, tem nojinho ou pratica, na buena, a tal arte sob o sol dos trópicos?
Xico Sá
«Os outros olharam-no desconcertados. “E que terias ganho com isso?”, perguntaram. “Uma camisa”, respondeu.
Esta história pode servir de introdução à economia do mundo de Kafka. Ninguém disse que as deformações que o Messias virá corrigir um dia, sejam apenas aleijões do nosso espaço. São-no também do nosso tempo. Kafka certamente que deve ter pensado nisso quando fez dizer ao seu avô: “A vida é extraordinariamente curta. É tal a sua brevidade na minha memória que não compreendo como é que um jovem, por exemplo, pode decidir ir a cavalo até à aldeia vizinha sem temer que – descontado qualquer desgraçado acidente – o lapso de uma vida normal e feliz possa ser demasiado breve para uma tal viagem”.
A porta da justiça é o estudo. E no entanto Kafka não se atreve a associar a este estudo as promessas que a tradição associava ao estudo da Tora. Os seus ajudantes são sacristães que ficaram sem paróquia; os seus estudantes, escolares sem escrita. Agora já nada pode detê-los na sua viagem “alegre e vazia”. Kafka, porém encontrou a lei da viagem dele: pelo menos uma vez conseguiu adaptar o seu ritmo trabalhoso a uma cadência épica, tal como durante toda a vida o procurou, confiando tal lei a um esboço que resultou no mais perfeito, e não só pelo seu carácter de interpretação.
“Sancho Pança nunca se gabou disso, mas com o passar dos ano, consumindo as noites a devorar histórias de cavalaria e aventuras, tanto conseguiu transtornar o seu demónio que o fez sair de si e lançar-se desenfreadamente nas empresas mais loucas. Acções, aliás, que não faziam mal a ninguém, à falta do objecto predestinado que deveria ter sido precisamente Sancho Pança. Mais tarde, deu a esse demónio o nome de Don Quixote e, movido por um sentimento de responsabilidade, seguiu-o calmamente nas suas correrias e desmandos, daí extraindo, até ao fim dos seus dias, grande alívio e útil distração”.
Louco pacífico e ajudante não ajudado, Sancho Pança mandou à frente o cavaleiro. Bucéfalo sobreviveu ao seu. Pouco monta distinguir entre homem e cavalo: o importante é tirar o peso de cima.»
[Walter Benjamin, Kafka; trad. e intrd. Ernesto Sampaio, Hiena, Novembro 1987;
Humor
Quase meia noite, um menino de seis anos se levanta da cama para ir ao banheiro.
No corredor, ao passar pelo quarto dos pais, espia lá pra dentro atraído por alguns ruídos 'mêi diferente'.
Ao flagrar os pais fazendo um tremendo 69, o garoto exclama indignado:
"- Puuuu-ta-quiii-paaaa-riuuuooo!!!!!!!!!
E vocês querem me levar para um psicólogo só porque eu chupo dedo?"
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Saber e sofrer
Dizer que o conhecimento faz sofrer tornou-se habitual. O sofrimento foi ligado à filosofia e à literatura a ponto de que não podemos imaginar um filósofo, ou alguém com cara de sábio em meio a livros, pulando carnaval ou curtindo uma piscina. Isso é um mito. Os filósofos e os escritores são ainda hoje constantemente vistos como pessoas que sofrem por conhecerem a alma humana em sua profundidade inacessível aos demais. Não quer dizer que conheçam a alma, nem que haja nela uma profundidade inacessível. Isto é apenas possível. É, sobretudo, uma crença compartilhada e, como tal, organiza nossa visão de muitas coisas. Nunca saberemos se os filósofos antigos eram todos sofredores, nem se conheciam a alma humana. Sabemos apenas que deixaram seu testemunho, no qual confiamos e com os quais devemos discutir hoje para entender o nosso tempo.
Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.
Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.
A doença é o que cura
Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.
A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.
Marcia Tiburi
Publicado originalmente em Vida Simples.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
"Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade".
(Celso Furtado)
domingo, 1 de janeiro de 2012
Autoestima
A campanha "Razões para acreditar" (Reasons To Believe) da Coca-Cola chegou no final de dezembro a Portugal, com roupagem refrescada, e desatou a apelar ao otimismo nacional, num momento em que o país tanto necessita de impulsionar a sua autoestima.
Vale a pena ver o comercial.
Vista Cansada
Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Otto Lara Resende
Crônica publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992).
Little Brazil
"New York Times" publicou uma matéria sobre a invasão brasileira de Miami, onde a nossa nova classe média está indo comprar apartamentos, eletrodomésticos, roupas e bolsas de grife — tudo mais barato lá do que aqui.
Segundo o "Times", só o Canada manda mais gente para a Flórida do que o Brasil, mas os canadenses gastam menos. Os comerciantes e as autoridades de Miami pressionam o Congresso americano para acabar com o visto ou facilitar sua aquisição por brasileiros, e mudanças havidas aqui recentemente na concessão dos vistos — antes irritantemente racionados — já são resultado da crescente importância dos brasileiros para a economia deles.
É verdade que antes de o Brasil ocupar Miami, Miami já tinha ocupado partes do Brasil, como nota quem passa pela Barra, no Rio, onde cada terceiro outdoor ou nome de prédio ou loja é em inglês. O que aconteceu foi que a Miami original ficou mais acessível a brasileiros do que as cópias locais.
Imagino que em breve estaremos desafiando os cubanos como principal força politica latina na região. Entre parênteses: uma vez fui convidado para uma Feira do Livro em Miami e acabei num jantar oferecido aos visitantes pela comunidade cubana.
Nascido em Porto Alegre, a um pulo de Buenos Aires e Montevidéu, julguei que não teria nenhuma dificuldade em pelo menos acompanhar as conversas. Inocente pretensão. Fora uma ou outra interjeição dirigida, adivinhei, ao Fidel, não entendi uma palavra. Não falavam um espanhol reconhecível. Talvez o espanhol do exílio seja outro.
De qualquer maneira, invejei o Milton Hatoum, meu companheiro de mesa, que não só entendia tudo como falava o idioma misterioso. Se pudesse voltar no tempo sabendo o que sei hoje, meu pensamento na ocasião seria: esperem só, cubanos. Um dia tudo isto será nosso. E em vez de Big Havana se chamará Little Brazil, e em vez de pseudoespanhol falaremos português, e os nossos cartões de crédito cortarão os ares. Fecha parênteses.
Somos a sexta economia do mundo, é mole? Natural que o novo status traga uma certa ostentação. Comprar um condomínio com vista para o mar em Miami é um bom negócio porque na Barra seria mais caro, embora o mar seja o mesmo.
Mas não é só isso. Olhando o mar da sacada do seu apartamento em Miami você pode dizer que realizou o sonho de ser americano que move tantos da sua geração. Você é um proprietário no primeiro mundo, lá onde "delivery" é delivery mesmo, e tem a escritura para provar.
Claro que seu orgulho seria maior se o fato de o Brasil ter ultrapassado a Inglaterra para se tornar a sexta economia do mundo significasse um crescimento mais bem compartilhado, e um atendimento social mais, bem, inglês, e mais brasileiros com saneamento básico do que fazendo compras em Miami. Mas isso é história para outros tempos.
Luis Fernando Veríssimo
Receita de Ano Novo
"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."
(Carlos Drumond de Andrade)
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."
(Carlos Drumond de Andrade)
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