Henry James
Uma das melhores coisas da vida é beber; uma das piores é ficar bêbado.
Isto
posto, espero que os abstêmios perdoem a singeleza deste título.
Culpar somente a bebida pelos despautérios dos bêbados é tão ingênuo
quanto atribuir a ela as qualidades dos romances de Hemingway ou de Lima
Barreto.
A
bebida não cria nada de bom nem nada de mau em nós; apenas potencializa
o que já temos. A bebida, em excesso, apenas atordoa, desorganiza,
embrutece. A bebida, na medida certa, apenas inebria, congraça,
arrebata e pacifica. Segundo Henry James, “a sobriedade reduz,
discrimina e diz não, enquanto que a embriaguez expande, unifica e diz
sim”.
Existe
uma equação que os grandes boêmios dominam intuitivamente. É preciso
beber até atingir um certo estado de euforia. Uma vez atingido este
estado, basta diminuir o ritmo de absorção, mas continuar bebendo de
pouquinho, a intervalos, para que o estado se mantenha.
Esta
é a parte mais difícil. A euforia produzida pelo primeiro assomo do
álcool é tão agradável que em geral perdemos o ponto e carregamos na
mão. O entusiasmo nos faz beber em maior velocidade do que o
necessário, e acabamos com a boca torta, o olho torto, a rua torta, e
até o táxi parece estar andando em duas rodas como um Simca Tufão.
Uma
sábia invenção dos que bebem vinho foi a idéia de alterná-lo com água.
A intenção é hidratar, mas psicologicamente acaba tendo um efeito de
retardamento da embriaguez. Quem gosta de beber conversando, como eu,
recorre de vez em quando ao copo para molhar a garganta e lubrificar as
idéias. Ora – uma coisa é pegar dez vezes a taça de vinho, outra coisa
é pegar cinco vezes na de vinho e cinco na de água. Eis o pulo do
gato. (Claro que, se o sujeito é pinguço mesmo, ele vai tomar uma
garrafa de vinho em uma hora, e não tem água que o recupere, mas aí eu
não tenho jeito a dar.)
Esta
medida é tão providencial que resolvi adotá-la também para outras
bebidas. Depois do quinto ou sexto chope, começo a alternar os chopes
com garrafinhas de mineral com gás. É o quanto basta, em geral, para
manter o inebriamento e me permitir, no fim, calcular minha parte na
conta.
Henry
James estava certo no que afirmou acima, mas os bebedores profissionais
sabem muito bem que a euforia alcoólica é geradora de fantasias
panteístas. Quando a farra está boa, viramos amigos de todo mundo,
fazemos juras e promessas, assumimos compromissos que no dia seguinte
vêm bater à nossa porta ou fazer latejar nossas meninges.
Dizem
que F. Scott Fitzgerald, que davas festas de arromba na sua casa em
Great Neck, mantinha na entrada dela um cartaz enorme dizendo:
“Solicita-se aos visitantes que não arrombem portas de armários em busca de bebida, mesmo quando autorizados a tanto pelos donos da casa. Hóspedes que vieram passar o fim de semana ficam respeitosamente prevenidos de que convites para ficar até segunda-feira, feitos pelos anfitriões na madrugada de domingo, não devem ser levados a sério”.
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

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