quarta-feira, 27 de outubro de 2021

 


 


Estudante brasileira concorre ao prêmio de melhor aluna do mundo

A estudante brasileira Ana Julia Monteiro de Carvalho concorre ao prêmio de melhor aluna do mundo – o Global Student Prize 2021.

 

A estudante brasileira Ana Julia Monteiro de Carvalho, de 18 anos, concorre ao Global Student Prize 2021. Ela é uma das dez finalistas da premiação, que vai escolher o melhor aluno do mundo. O prêmio é uma parceria da Fundação Varkey com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). O vencedor da primeira edição do Global Student Prize será conhecido em 10 de novembro e receberá US$ 100 mil.

Natural de Maceió (AL), Ana Julia já ganhou prêmios na área de robótica e em outros projetos científicos. Ela estuda na Escola Industrial de Educação Básica do SESI Abelardo Lopes. Um dos seus projetos foi a criação de um sistema para oxigenar a água das vacas com energia eólica e com isso aumentar a produção de leite em áreas de subsistência, de acordo com o UOL.

Se ganhar os US$ 100 mil, a brasileira pretende estudar no exterior e também quer criar uma organização para ajudar outros alunos a desenvolver seus projetos. Para chegar à final do Global Student Prize, a jovem superou cerca de 3,5 mil candidaturas e indicações de 94 países, segundo o UOL. Os demais finalistas são dos seguintes países: Quênia, Reino Unido, Serra Leoa, Canadá, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Itália, Nigéria e Índia.
 
Por Gazeta do Povo
 
"Quando temos medo de alguém é porque damos a esse alguém algum poder sobre nós"

Hermann Hesse, in Demian.


"Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltaremos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez..."
 
Mia Couto

 


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Obsessão

A culpa não é minha, delegado. É do nariz dela. Ela tem um nariz arrebitado, mas isso não é nada. Nariz arrebitado a gente resiste. Mas a ponta do nariz se mexe quando ela fala, delegado. Isso quem resiste? Eu não. Nunca pude resistir a mulher que quando fala a ponta do nariz sobe e desce. Muita gente nem nota. É preciso prestar atenção, é preciso ser um obsessivo como eu.
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O nariz mexe milímetros, delegado. Para quem não está vidrado, não há movimento algum. Às vezes só se nota de determinada posição, quando a mulher está de perfil. Você vê a pontinha do nariz se mexendo, meu Deus. Subindo e descendo. No caso dela também se via de frente. Uma vez ela reclamou, “Você sempre olha para a minha boca quando eu falo”. Não era a boca, era a ponta do nariz. Eu ficava vidrado no nariz. Nunca disse pra ela que era o nariz. Eu sou louco, delegado? Ela ia dizer que era mentira, que seu nariz não mexia. Era até capaz de arranjar um jeito de o nariz não mexer mais.
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Mas a culpa mesmo, delegado, não é do nariz, não é dela e não é minha. A culpa é da inconstância humana. Ninguém é uma coisa só, nós todos somos muitos. E o pior é que de um lado da gente não se deduz o outro, não é mesmo? Você, o senhor, acreditaria que um homem sensível como eu, um homem que chora quando o Brasil ganha bronze, delegado, bronze? Que se emocionava com a penugem nas coxas dela? Que agora mesmo não pode pensar na ponta do nariz dela se mexendo que fica arrepiado? Que eu seria capaz de atirar um dicionário na cabeça dela? E um Aurelião completo, capa dura, não a edição condensada ou o CD? Mas atirei. Porque ela também se revelou. Ela era ela e era outras.
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A multiplicidade humana é isso. A tragédia é essa. Dois nunca são só dois, são dezessete de cada lado. E quando você pensa que conhece todos, aparece o décimo oitavo. Como eu podia adivinhar, vendo a ponta do narizinho dela subindo e descendo, que um dia ela me faria atirar o Aurelião completo na cabeça dela? Capa dura e tudo? Eu, um homem sensível? Porque ela não era uma, delegado. Tinha outra, outras, por dentro. Tudo bem, eu também tenho outros por dentro. Por exemplo: nós já estávamos juntos havia um tempão quando ela descobriu que eu sabia imitar o Silvio Santos. Sou um bom imitador, o meu Romário também é bom, faço um Lima Duarte passável, mas ninguém sabe, é um lado meu que ninguém conhece. Ela ficou boba, disse “Eu não sabia que você era artista”. E eu também sou um obsessivo. Reconheço. E a obsessão foi a causa da nossa briga final. Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria é que a gente nasce com várias possibilidades e quando uma predomina as outras ficam lá dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo, ressentidas. E, vez que outra, querendo aparecer. Tudo bem, viver juntos é ir descobrindo o que cada um tem por dentro, os dezessete outros de cada um, e aprendendo a viver com eles. A gente se adapta. Um dos meus dezessete pode não combinar com um dos dezessete dela, então a gente cuida para eles nunca se encontrarem. A felicidade é sempre uma acomodação.
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Eu estava disposto a conviver com ela e suas dezessete outras, a desculpar tudo, delegado, porque a ponta do seu nariz mexe quando ela fala. Mas aí surgiu a décima oitava ela. Nós estávamos discutindo as minhas obsessões. Ela estava se queixando das minhas obsessões. Não sei como, a discussão derivou para a semântica, eu disse que “obsedante” e “obcecante” eram a mesma coisa, ela disse que não, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse “Rará”, depois disse que “obcecante” era com “c” depois do “b”, eu disse que não, que também era com “s”, fomos consultar o dicionário e ela estava certa, e aí ela deu outra risada ainda mais debochada e eu não me aguentei e o Aurelião voou. Sim, atirei o Aurelião de capa dura na cabeça dela. A gente aguenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente.
Arrogância intelectual, não.

Luis Fernando Verissimo, no livro “Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

 


 



 ...Então, naquele dia, na aula de música, a professora perguntou quem conhecia a canção do vale. Sua mão logo se ergueu. Ela colocou você em um banquinho e mandou você cantar pra gente. E juro, todos os pássaros do lado de fora ficaram em silêncio.

 


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

 



Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!

No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.

Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.

Fernando Pessoa
Poesias Inéditas (1919-1930)
Art. Leonid Afremov

 



Comprei um sal do Himalaia cujo rótulo informa que se originou a 250 milhões de anos, mas se vence em novembro próximo. Durma-se com uma informação dessa!

Charge

 


domingo, 24 de outubro de 2021


Tulipas sobre o olhar da lua

📷@kathrinfederer.ch

 



"Uma circunstância me atormentou:
ou seja, que ninguém mais era como eu,
e eu não era como mais ninguém.
Eu sou apenas um, e eles são todos." 
 
Dostoiévski

 

 


 


 


sábado, 23 de outubro de 2021



 



"Não me basta ser:
eu quero o transbordar de tudo,
o desassombro
que toda margem desconhece.

Não me basta morar:
quero ser habitado
por quem ao destino desobedece.

Não me basta viver:
quero a vida como febre,
o amor como lume e água.

No final, saberás:
o que se ama não regressa.

O que se vive
não começa.

E o sonho
nunca tem pressa."

Mia Couto - in 'Vagas e Lumes'

 


"Sim, quero viver muitos anos mais. Mas não a qualquer preço. Quero viver enquanto estiver acesa, em mim, a capacidade de me comover diante da beleza."

Rubem Alves