Ninguém tem ombro
para suportar sozinho o peso de existir.
Mia Couto
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Ovo frito
Gosto muito de ovo. Ovo frito. Ovo escaldado, com pão torrado. Coisa
boba, o fato é que comecei a pensar sobre as razões por que gosto de
ovo. Lembrei-me…
Meu pai era viajante. Passava a semana fora de
casa. Voltava às sextas-feiras, no trem das oito. Noite escura, o trem
das oito vinha apitando na curva, resfolegando de cansado, expelindo
enxames de vespas vermelhas, chamuscava uma paineira, entrava na reta,
passava a dez metros da nossa casa, todos nós estávamos lá, o pai com a
cabeça de fora, sorrindo, e todos corríamos para a estação. Ele vinha
com fome e sujo. Água quente não havia. Mas não tinha importância. Da
leitura do Evangelho havíamos aprendido de Jesus, no lava-pés, que quem
está com os pés limpos tem o corpo inteiro limpo. A coisa, então, era
lavar os pés. E esse era o costume geral lá em Minas. Minha mãe
esquentava água no fogão de lenha, punha numa bacia e eu lavava os pés
do meu pai. Depois de limpo, ele se assentava à mesa e o que tinha para
comer era sempre a mesma coisa: arroz, feijão, molho de tomate e cebola,
ovo frito e pão. Ele me punha assentado ao joelho e comia junto.
Ah, como é gostoso comer pão ensopado no molho de tomate, pão
lambuzado no amarelo mole do ovo! Era um momento de felicidade. Nunca me
esqueci. Acho que quando enfio o pão no amarelo mole do ovo eu volto
àquela cena da minha infância. Os poetas, somente os poetas, sabem que
um ovo é muito mais que um ovo…
Rubem Alves
Rubem Alves, crônica do livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.
São Paulo, 12 de agosto de 1987
Querida mãe, querido pai,
Não
sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e
mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só
durante tantos — quase quarenta — anos. Devo estar acostumado.
Dormir
24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o
equilíbrio de vocês — que é muito delicado. E também de não perturbar o
meu próprio equilíbrio — que é tão ou mais delicado.
Estou me
transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que
só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas
aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o
destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra
coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida — como quem
olha de uma janela — mas não consegue vivê-la.
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem
mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por
trás disso, há muito amor. Amor louco — todas as pessoas são loucas,
inclusive nós; amor encabulado — nós, da fronteira com a Argentina,
somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o
silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho
medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.
Amo vocês, seu filho.
Caio
Caio Fernando Abreu, no livro “Caio Fernando Abreu: o essencial da década de 1980”. Nova Fronteira, 2014.
terça-feira, 19 de novembro de 2019
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
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