quinta-feira, 19 de setembro de 2019



Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: Meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Eu gosto de pessoas que, sem pedir permissão, tocam minha alma

As pessoas que eu admiro mal cabem nos dedos de uma mão. São elas a quem eu observo e escuto em silêncio. As pessoas que eu admiro, ainda que não se deem conta, fazem de mim uma pessoa melhor, tornam o meu mundo um lugar melhor. As pessoas que eu admiro são apenas humanas, cometem falhas como todo mundo, mas possuem um dom muito especial, que é o de saber tocar a minha
alma.

Existem milhares dessas pessoas no mundo, talvez você seja uma delas, talvez seja você essa referência a outros, não por ser perfeito, mas por saber oferecer o refúgio, a proteção, a compreensão que o outro procura. Esse tipo de pessoa sabe o valor de cada ação, são especialistas em agasalhar almas e sabem perfeitamente quando é a vez das palavras e o quanto o silêncio pode ser curador.

Quem tem em seu círculo de convivência um ser desses, sabe muito bem o que é receber afago na alma, sabe o que é ter em alguém o abrigo para as horas em que o mundo se torna mais hostil do que já é. Sabe aqueles momentos em que você deseja que um buraco se abra para que você se enfie lá e se esconda do mundo? Nunca irá se abrir esse buraco, mas quem tem um especialista em almas como
amigo, sabe onde buscar essa sensação de amparo.

Não importa se essa criatura mora ao lado, more conosco ou até mesmo viva em um lugar muito distante. Acredite, eles sempre conseguem uma forma de invadir você, de ultrapassar qualquer barreira para chegar até a sua alma ferida e resgatá-la. Nelas temos total confiança e, ainda que nos trancamos, ainda que criemos uma armadura onde escondemos nossos sentimentos, seja de tristeza ou de felicidade, esse invasor do bem chegará até nosso mais profundo interior para nos confortar se estivermos tristes ou para festejar se estivermos felizes.

Quando pedimos um afago e recebemos é muito bom, mas não há como negar que recebe-lo sem pedir, que ser surpreendido docemente por mãos mágicas a acariciar nossa alma, é algo extraordinário. Esse gesto que nos faz sentir menos sozinhos, nos faz perceber que temos valor sim para alguém e reaviva nossas esperanças na humanidade.

Mas é bom lembrar que essas pessoas também possuem almas, e, se doam tanto carinho, tanta atenção, é porque também gostam de recebe-los. Seja você hoje o invasor, estique seu braço e toque a alma daquele que nunca se negou a acariciar a sua. Faça um afago, um elogio sincero, um agrado para demonstrar sua gratidão.


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Amanhecer no Vale do Pati, Chapada Diamantina.

Foto: Willian

Sonhando

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!


D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d’alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.


Lá vem a tua agora… Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa


Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!…



– Florbela Espanca, no livro “O Livro D’Ele”. 1915
“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” 

- Guimarães Rosa.

Dostoiévski: O niilismo e o problema do mal na modernidade

Encontra-se nos escritos de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) a reflexão profunda acerca dos desdobramentos do processo de racionalização que caracteriza a modernidade. A evolução do pensamento moderno, com seus reflexos no campo moral, filosófico, político e pedagógico traz à civilização ocidental desafios nunca antes enfrentados: a submissão total do dogma e da tradição ao exame crítico da razão se transcreve ao mundo prático em manifestações entusiásticas e preocupantes. Como lidar, ao mesmo tempo, com a inovação tecnológica e com o levante dos movimentos populares e com a perda de sentido e com o esfacelamento das linguagens sociais, traduzidas em ritos e hábitos sociais cristalizados ao longo de séculos, que parece lançar a sociedade russa numa tensão insolúvel?
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Nas obras de Dostoiévski a polifonia que reúne vozes performáticas e profundamente anti-éticas representa o núcleo do romance e da questão humana colocada pelo autor. As muitas filosofias que se irradiam das transformações modernas desvelam a trágica condição do homem enquanto ser mortal, racional, amante ou crítico feroz do divino e tomam lugar nos seus romances através de seus personagens. O niilismo, o ateísmo, a revolução, “o espectro do comunismo”, a educação liberal, o amor ao próximo e à transcendência, e, mais especialmente o problema do mal são todos temas interligados e em constante diálogo no conjunto de seus escritos. A crítica de Dostoievski à modernidade pode, desse modo, ser transcrita aos seguintes termos: poderá o homem, no mundo moderno, encontrar um novo sentido para a existência? Onde, em suma, encontrar a legitimidade e os limites éticos, morais e legais para a ação humana?

Fonte e créditos  aqui

terça-feira, 17 de setembro de 2019


Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o déficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o ato de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?

Mia Couto, in 'E Se Obama Fosse Africano?'



 
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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

"A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada."

Lya Luft



Mais recente e mais clara foto de Plutão

domingo, 15 de setembro de 2019

Foto dpa
Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos.


“-A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.”

(Mia Couto)