quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

 


"Enquanto não possuía nada além da minha cama e dos meus livros, eu estava feliz. Agora eu possuo nove galinhas e um galo, e minha alma está perturbada. A propriedade me tornou cruel.

Sempre que comprava uma galinha amarrava-a dois dias a uma árvore, para impor a minha morada, destruindo em sua memória frágil o amor à sua antiga residência. Remendei a cerca do meu quintal, a fim de evitar a evasão dos meus pássaros, e a invasão de raposas de quatro e dois pés. Eu me isolei, fortifiquei a fronteira, tracei uma linha diabólica entre mim e meu vizinho. Dividi a humanidade em duas categorias; eu, dono das minhas galinhas, e os outros que podiam tirá-las de mim. Eu defini o crime. O mundo encheu-se para mim de alegados ladrões, e pela primeira vez eu lancei do outro lado da cerca um olhar hostil. 
 
Meu galo era muito jovem. O galo do vizinho pulou a cerca e começou a corte das minhas galinhas e a amargar a existência do meu galo. Despedi o intruso a pedrada, mas eles pularam a cerca e avoaram na casa do vizinho. Eu reclamei os ovos e meu vizinho me odeia. Desde então vi a cara dele na cerca, o seu olhar inquisidor e hostil, idêntico ao meu. Suas galinhas passavam a cerca, e devoravam o milho molhado que consagrava aos meus. As galinhas dos outros me pareciam criminosas. Persegui-os e cego pela raiva matei um. O vizinho atribuiu grande importância ao atentado. Ele não aceitou uma indenização pecuniária. Retirou gravemente o corpo do seu frango, e em vez de comê-lo, mostrou-o aos seus amigos, o que começou a circular pela aldeia a lenda da minha brutalidade imperialista. Tive que reforçar a cerca, aumentar a vigilância, aumentar, em suma, meu orçamento de guerra. O vizinho tem um cão determinado a tudo; eu pretendo comprar uma arma. 
 
Onde está minha antiga tranquilidade? Estou envenenado pela desconfiança e pelo ódio. O espírito do mal tomou conta de mim. 
 
Eu era um homem.
 
 
Agora eu sou um dono." 
 
("Galinhas", do anarquista Rafael Barrett, Paraguai, 1910.) Um relato exemplar para discutir as célebres frases de Rousseau ou Hobbes. 
 
Jean Jacques Rousseau, “O primeiro homem que, havendo cercado um pedaço de terra, disse “isso é meu”, e encontrou pessoas tolas o suficiente para acreditarem nas suas palavras, este homem foi o verdadeiro fundador da sociedade civil", em Do Contrato Social (1762).

 

[…] eu aconteci num tempo de caminhos cansados.

Mia Couto - Cada homem é uma raça

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

 


Humor

O bêbado chegava todo dia no boteco, pedia uma pinga, tampava o nariz e tomava tudo num só gole. Um dia, o balconista não se conteve:
- Escuta aqui, ô cara! Por que você tapa o nariz enquanto bebe?
E o bêbado:
- É que o cheiro da pinga me dá água na boca... e eu gosto dela é pura!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

 

A fotografia que você vê aqui faz parte de um conjunto de oito itens que estão disponíveis para consulta on-line no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (Sian).

Nas imagens, trabalhadores e um veículo utilizado pelo serviço postal brasileiro, Rio de Janeiro, [1925-1935]. Arquivo Nacional. Coleção Fotografias Avulsas. BR_RJANRIO_O2_0_FOT_0454_0001

 


domingo, 5 de fevereiro de 2023

Frase

 (...)

Meu pai tentou encher de fantasia e enfeitar as coisas que eu via. Mas aqueles anjos agora já se foram depois que eu cresci

(...)
(Traumas - RC)

Frase

 

Apenas os loucos e os solitários é que se podem dar ao luxo de serem eles próprios. Os solitários não têm ninguém pra agradar e os loucos não se importam se agradam ou não."

Charles Bukowiski

sábado, 4 de fevereiro de 2023


E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?“

José Saramago, em “A maior flor do mundo”

Chá de cadeira

 


 

"É escusado sonhar que se bebe, quando a sede aperta, é preciso acordar para beber."

Freud

 


 

" Ela acreditava em anjos, e porque acreditava, eles existiam."

Clarice Lispector

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

 


 

"Quem nunca foi criança não precisa do tempo para envelhecer."

Mia Couto - no livro 'Antes de nascer o mundo'

As coisas são... As coisas vêm... As coisas vão... As coisas vão e vêm.. As horas vão e vêm... Não em vão."

(Oswald de Andrade)

“Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.”
 
Alberto Caeiro

 


“As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.”

Oscar Wilde.
“Angústia", August Friedrich Schenck (1878)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

 


 

"As pessoas que não fazem barulho são perigosas."

Jean de La Fontaine

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023


Se depois de eu morrer,
quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas —
a da minha nascença e
a da minha morte.
Entre uma e outra cousa
todos os dias são meus. 
 
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem
sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo
que não pudesse realizar,
porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim
senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e
todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos,
nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento
seria achá-las todas iguais. 
 
Um dia deu-me o sono
como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso,
fui o único poeta da Natureza. 
 
— Alberto Caeiro em “Poemas Inconjuntos"
(Fernando Pessoa)
 
Arte digital de Francisco Ruivo (Xico Forever)

 

Ferreiros damascenos produzindo espadas da famosa liga metálica medieval conhecida como "aço damasco'', Síria, Império Otomano, inicio do século XX. As lâminas de Damasco eram fabricadas no Oriente Médio a partir de lingotes de aço wootz importados da Índia, bem como do Sri Lanka, vindas das distantes rotas de comércio em caravanas e navios. Os árabes introduziram o aço wootz em Damasco, onde a indústria de armas prosperou durante todo período medieval e além, e por suas qualidades únicas, o aço damasco passou a ter uma fama quase lendária. A produção dessas espadas padronizadas diminuiu gradualmente no Oriente Médio islâmico, se extinguindo por volta de 1900, e o processo foi se perdendo para os ferreiros nas décadas seguintes. Várias teorias modernas se aventuraram a explicar esse declínio, incluindo a quebra de rotas das comércio para suprir os metais necessários, a falta de impurezas nos metais, a possível perda de conhecimento sobre as técnicas de fabricação por meio de sigilo e falta de transmissão, supressão da indústria na Índia pelo Raj britânico, ou uma combinação de todos estes. Recriar o aço de Damasco é um subcampo da arqueologia experimental. Muitos tentaram descobrir ou refazer engenharia reversa do processo pelo qual ela foi feita. Acredita-se que o aço damasco tenha sido a inspiração histórica real de George R. R. Martin para criação do "aço valiriano'' de seus contos em Game of Thrones.

Bibliografia:
-Pacey, Arnold (1991). Technology in World Civilization: A Thousand-year History. MIT Press. p. 80.
-"Early Islamic manufacture of crucible steel at Merv, Turkmenistan"
-Burton, Sir Richard Francis (1884). The Book of the Sword. London: Chatto and Windus. p. 111.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023