sábado, 3 de outubro de 2020
Bar
A moça chegou com sapatinho baixo, saia curta, cabelos lisos castanhos arrumados em
rabo-de-cavalo, sorriu dentes branquinhos muito pequenos, como de primeira dentição, e
falou o senhor me deixa telefonar? de maneira inescapável.
O homem da caixa registradora estava olhando o movimento do bar, tomando conta de maneira
meio preguiçosa, sem fixar muito os olhos no que o rapaz do balcão já havia servido aos
dois fregueses silenciosos, demorando-os mais no bêbado que balançava-se à porta do
botequim ameaçando entrar e afinal parando-os no recheio da blusinha preta sem mangas que
estava à sua frente, o que o fez despertar completamente com um e a senhora o que é?
A moça constatou contrariada que havia desperdiçado a primeira carga de charme e mostrou
novamente seus pequeninos dentes, agora fazendo a precisadinha urgente, dizendo eu posso
telefonar? com ar de quem entrega ao outro todas as esperanças.
O homem falou pois não e levantou a mão meio gorda do teclado da caixa registradora,
abaixou-a olhando para o bêbado que subia o degrau da porta, retirou de uma prateleira
debaixo da registradora um telefone preto onde ainda estava gravado no meio do disco o
selo da antiga Companhia Telefônica Brasileira e empurrou-o para a moça dizendo não
demore por favor que já vamos fechar.
A moça tirou o fone do gancho e murmurou baixinho putz, sopesou ostensivamente o aparelho
e disse bajuladora pesadinho hein?
O homem sorriu atingido pela seta da lisonja dizendo éééé antigo.
A moça levou o fone ao ouvido e discou 277281 com um dedo bem tratado de unha lilás.
O homem da caixa tirou os olhos do dedo, pegou um lápis enganchado na orelha direita e
anotou a milhar explicando é pra o bicho, não se importando se a moça ouvia ou não e
devolveu o lápis à orelha enquanto olhava o bêbado que navegava agora à beira do
balcão.
A moça falou quer fazer o favor de chamar o Otacílio e ficou esperando.
Um homem chegou ao lado dela cheirando a cigarro, falou para o caixa me dá um miníster,
olhou intensamente os olhos dela e imediatamente os seios.
A moça enrubesceu e se tocou rápida procurando o botão aberto que nem havia e
protegeu-se expirando o ar com o diafragma e avançando os ombros para disfarçar o volume
do peito.
A caixa registradora fez tlin, um carro freou rangendo pneus e uma voz forte gritou filha
da puta com um u muito longo.
O homem da caixa deu o troco ao homem que comprara cigarros e falou faz de conta que não
ouviu nada menina isso aqui é assim mesmo.
O homem que comprara cigarros afastou-se e foi ver da porta o que estava acontecendo na
rua.
A moça voltou-se simpática para o homem da caixa mas parou atenta aos sons do fone,
mudou de atenta a decepcionada e falou depois de instantes diz que é a Julinha.
O homem que comprara cigarros parou na porta, abriu o maço de cigarros e acendeu um.
O homem da caixa falou ô José esse aí tem de pagar primeiro e o rapaz do balcão parou
de servir a cachaça para o bêbado e falou qualquer coisa com ele enquanto o homem da
caixa procurava explicar-se dizendo depois não paga e ainda espanta freguês.
A moça sorriu condescendente.
O homem fumava à porta e olhava as pernas dela.
A moça pôs uma perna na frente da outra defendendo-se cinqüenta por cento e falou de
repente alegre oi! demorou hein? E procurando um pouco de privacidade virou-se dizendo
ficou com raiva de mim?
O homem da caixa fingia-se distraído mas ouvia o que ela dizia.
Pensei. Não me ligou.
O bêbado navegou contornando arrecifes e chegou ao caixa com uma nota de quinhentos na
mão.
Mas não é isso, não é nada disso.
O homem da caixa disse pode servir José.
Não sei... fiquei com medo, só isso.
O bêbado começou o cruzeiro de volta.
Não, não. Não é de você. Acho que é assim mesmo, não é?
A caixa registradora fez tlin marcando quinhentos cruzeiros.
Poxa, Otacílio, pensa. O tanto de coisa que vem na cabeça da gente numa hora dessas.
Vocês acham tudo fácil.
A cara do homem da caixa estava um pouco mais desperta e maliciosa.
Claro que é difícil. É só querer ver o lado da gente, pô.
O rapaz do balcão tirou o mesmo copo meio servido e a mesma garrafa e completou a dose do
bêbado.
Tá legal. Eu também acho: vamos esquecer o que aconteceu ontem. Falou.
O bêbado olhou atentamente para o copo como se meditasse mas na verdade apenas esperando
o momento certo de conjugar o movimento do navio com o de levar o copo à boca e quando o
conseguiu bebeu tudo de uma vez com uma careta e um arrepio.
A moça ouviu com ar travesso o que Otacílio dizia e sorriu excitada seus dentes
branquinhos.
O homem da caixa olhou para o homem da porta e a cumplicidade masculina brotou nos
olhares.
Não, sábado não dá. Aí já passou. Ora, como. Passou do dia, Ota, não dá. Não dá
pra explicar aqui. Você não entende? Tem dia que dá e tem dia que não dá, pô.
O homem da caixa piscou para o homem que fumava na porta como quem diz você que tava
certo.
Uai, só daqui a uns quinze dias. Lógico que eu me informei.
A moça viu o olhar do homem da porta e virou-lhe as costas.
Hoje!? Tá louco?
O homem que fumava ficou olhando-a por trás.
Papai não vai deixar. Só se... Só se eu falar com a mamãe e ela falar com ele.
Alguém chegou e falou cobra duas cervejas e me dá um drops desse aqui ó hortelã.
Ora, que que eu vou falar. Não sei, pô. Eu dou um jeito. Pode deixar que eu me viro.
A caixa fez tlin e o homem foi embora sem que ela o visse.
Não, eu vou. De qualquer jeito eu vou. Agora eu que tou querendo.
A moça olhou para o homem da caixa e fugiu depressa daquela cara agora debochada.
Então me espera. Eu vou aí. Chau.
A moça desligou e ficou uns instantes com o olhar baixo tomando coragem e depois falou
para o homem posso ligar só mais unzinho?
O homem da caixa falou pode alongando o o muito liberal e olhando fixamente de cima a
sugestão do decote.
A moça procurou um ponto neutro para olhar e achou o rapaz que lavava copos atrás do
balcão, enquanto esperava o sinal do telefone, depois discou 474729 e ficou olhando o
ambiente.
Uma armadilha azul fluorescente de eletrocutar moscas aguardava vítimas.
O rapaz do balcão olhava-a furtivamente e murmurou gostosa, de dentes trincados.
O bêbado esperava o melhor momento de descer do degrau para a rua com um pé no chão e
outro no ar, como alguém inseguro que se prepara para descer de um bonde andando.
O homem da porta juntou os cinco dedos da mão direita e levou-os à boca num beijinho
transmitindo ao homem da caixa sua opinião sobre ela.
O homem da caixa respondeu segurando a pontinha da orelha direita como quem diz é uma
delícia.
A moça murmurou será que saíram? explicando-se para ninguém.
Os dois homens silenciosos que bebiam cerveja encostados no balcão não estavam mais lá.
A moça ficou de lado e o homem da caixa fez um galeio para ver um pouco mais de peitinho
pelo vão lateral da blusinha sem mangas.
A moça emitiu um ah de alívio, puxou o fio até onde dava e meio abaixou-se de costas
para dizer mamãe? é Júlia com uma voz abafada por braços e mãos e concentrada no que
ia dizer.
O homem da porta, o rapaz do balcão e o homem da caixa se olharam rapidamente.
Olha, eu jantei aqui na cidade com a Marilda. Ora, mamãe, a senhora conhece a Marilda,
até já dormiu aí em casa. É, é essa. Olha: agora a gente vai ao cinema, viu? Que
tarde, mamãe, tem uma sessão às dez e meia. Se ficar muito tarde eu vou dormir na casa
dela. É só porque é mais perto, mamãe, senão a gente ia praí. Não tem. A senhora
sabe que não tem. A senhora fala com papai pra mim? Não, eu não vou falar. Tá bom. Eu
ligo depois do cinema. Só pra confirmar, hein, porque o mais certo é a gente ir pra lá.
Um beijo. Bota a gatinha pra dentro, viu? Chau.
A moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é.
O homem da caixa não estava mais lá e falou pra você não é nada gostosa, atrás dela.
A moça se voltou rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas.
Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio círculo em torno dela.
Ivan Ângelo
Nova Canção do Exílio
Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos
Estranheza do Mundo
Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.
Ferreira Gullar
Os poemas acima foram publicados no jornal "O Globo", Caderno "Prosa &
Verso", de 02/09/2000.
Bailaora
É o anúncio desta véspera:
O que será é sempre acontecido,
feito esta luz tardia
a consagrar a espera.
No céu andaluz, o inútil infinito
É sexta-feira de paixão.
Alumbram teu rosto os madrigais
e em graça donzela te abstrais:
uma fuga perfeita, bachiana.
Olho teu olhar de sempre mais,
espantos de bruxas, límpidas madonas.
Ainda ficas quando te esvais.
E a isso chamas compartir.
Esperemos o desporvir.
O que pudermos saber,
os mortos já esqueceram.
Quando será velada a foto dessas núpcias,
festa em deserto e encarnado?
Lúcido alvoroço
de teu corpo
em repouso.
Alpendre solar,
a passarinha.
Calle soturna,
tua sombra nua
reluz de embriagar.
Todo sorriso é silêncio,
como esse teu jeito de prazer:
calado, mas retine.
Adourada deusa, passos de marfim,
adereços de grama nas pegadas.
E me vens prometendo
com o destemor do medo,
o que não tens e eu não mereço.
Pisas sem pesar na minha primavera.
E na gestalt de teus músculos,
minha terra treme.
Há um pomar na tua geometria:
são curvas de maçã,
recantos pêssegos.
Que líquida oliva
tremeluz na tua pupila?
Chorar? A lágrima não lavra,
que saudade é vingança da palavra.
Depois de nossas batalhas,
é triste viver em paz.
Ai de mim, ai de mim,
por quem não posso suspirar.
Morro de tantas mortes de amar.
És o que acaba e não tem fim.
Sou um espantalho que braceja;
de susto, minha sombra adeja.
Sevilha festeja o luto;
Em tua despedida me sepulto.
"Aimé, aimé".
É vestido ou nudez
o teu transparecer?
Linguagem vertical,
gravas no chão
fonemas de metal.
Entre tuas pernas abertas em arpejo,
creio na morte eterna e te solfejo.
Desfaz-se o nosso tormento,
em sobressalto e lamento.
Este o fim do nosso feito:
a inconclusão do perfeito.
Cláudio Mello e Souza
Desespantalhamundos
Tinha aquela menina. Fazia o padre rifar seus pecados com a ave-maria-cheia-de-graça na
ponta da língua e o aleluia por debaixo da batina, em uma oferta que desassossegava até
as excelências mais castas, quando a boca entreaberta presenteava a língua à hóstia.
Catequizada no rigor bíblico, nas frias salas do colégio das freiras, escolheu a
comunhão para exorcizar a meninice e convocar a mulher que então vazava no quadril
adolescente, época em que já emprestava um vestido de linho branco para alinhar um par
de coxas fresco e arrepiar os seios, para o horror dos hábitos salesianos.
De pequena soube de sua vocação, nas brincadeiras atrás da casa, nos porões
abandonados, nos esconderijos da escola, onde descobria dos meninos um outro jogo ao pé
do ouvido, coisa que ainda lá não lhe conquistava a simpatia. Cuidou de ser menina até
pintar de vermelho as rendas de seus segredos. Mas como a natureza exige a espécie,
transformou-se naquilo para que veio ao mundo.
Aconteceu que toda a comunidade, em certo domingo de calor escancarado, deu com o diabo
dentro de si, um ornamento novo para a alma tão imaculada que guardavam ao paraíso,
untando a testa de queroque-te-como-toda, tonteando entre o bem e o mal, enquanto a
menina, acomodada na cadeira solitária à frente da nave, filava olhares no
cruza-descruza das pernas, vez que outra deixando escapar uma inocência fingida pelo
canto dos olhos. Os outros, profanados, escondendo a ereção, perdiam os versículos que,
no altar, o pároco resmungava já esvaziado de qualquer santidade; ela, que não se
arredava da ocasião, que ali fazia palco da mímica improvisada, tentava olhares,
trejeitos, com aquela oferta irrecusável de quem curva o sorriso aos quinze anos. O
silêncio, uma espécie de vozerio surdo, censurável até as medidas das mais beatas,
denunciava intenções que, em outras casas, pagaria por hora o aluguel do favor mundano.
Desavisada de tudo, ela embalava os vícios reprimidos de uma dezena de entediados
maridos, plantando uma promissória parelha de chifres nas amantes de final de mês.
Missa terminada, alcançou o sacristão, tamborilando os saltos pelos ladrilhos
abençoados, confessando pressa em resolver questão que, se não tratada imediatamente,
traria grandes dificuldades para as lidas da sacristia. O noviço, embeiçado no decote da
mocinha, fingiu a maior atenção possível, enquanto ela acusava a mão sorrateira do
João da Belinha, que trocava a moeda pela nota generosa dos dízimos de toda a gente. Uns
tantos outros invejavam o deslumbrado moço que esforçava a alma no caminho reto, tão
perto do cheiro da menina nova. Pela garganta do templo as mulheres escoavam doloridas,
dor de inveja, de ciúme, dor de fêmea que pariu demais e já trocou os seios por um par
de mamas preguiçosas, todas entocadas nas meias-calças, nos sutiãs, nas anáguas, nos
vestidos abaixo dos joelhos. Restou apenas a devota, pelo padre apaixonada, mulher do tal
João — Belinha por alcunha, Elizabete por certidão —, comendo a menina com um
par de sobrancelhas duras e lábios contraídos, com jeito de quem descobre a calúnia
depois da consagração.
O incontornável drama deu-se quando a Belinha, já desejando a orelha da guria, na ânsia
de desfazer a porca imagem daquele tão seu João, tropeçou no aborrecimento, empilhando
sobre o sacristão e os ameninados homens, os gestos de quem, desastrado, perde a pose,
esgarçando os braços sobre o decote da delatora. Rasgou o vestido de cima a baixo, pondo
à vista um par de seios empinados e adornados por auréolas rosas que firmemente
apontavam para o horizonte dos olhares da matilha. Quando deu conta do acontecido, João
emprestou o abraço à gazelinha, com a desculpa de um gesto nobre, na oportunidade única
de chegar perto daquela preciosidade. O puta-que-te-pariu que esbofeteou à cúpula
daquela assembléia divina despiu João de seu engenho, entoado pela mocinha que ali de
Eva posava emputecida, mesmo que nos mais peculiares contornos de sua alma encontrasse o
despudor, a desavergonhada vontade de oferecer a pia aos jorros incontidos dos mais
recatados. Belinha, que desabrochava um despeito, ainda embrulhada entre os embeiçados,
viu nas rugas jovens do marido um desejo de carne, uma vontade de sujeira, de emporcalhar
o mundo todo, e deu-se conta, como aos doze, que dos homens pouco lhe coubera, senão um
casamento apressado aos dezessete, umas poucas noites sem o gozo ávido, e um comichão
que prometia e não cumpria, deixando gélida as entranhas da mulher que então ia
sofrendo. Ele, debruçado ao pé da deusa, com a cara inchada e a elegância desfeita,
ruminava a vergonha daquele ímpeto descontrolado que o lançara aos seios jovens da
donzela.
Porém, nos enquantos de todo aquele quadro, entremeava um desespero no sacristão, algo
que lhe abismava os critérios puros, mas que de outra sorte evocava a Trindade, os
santos, os arcanjos, todo o tipo de visões de benevolência e inclinação frígida que
só quem reza mais do que pensa pode manter. Enquanto salivava, maldizia. Maldizia o
padre, o João da Belinha, maldizia a própria Belinha, a Virgem, a menina, todos que ali
se enlaçavam na lascívia, nesse ou no outro mundo. Meu Deus, sou apenas um homem! gritou
desvirtuado, jurando arrancar a pequena de tantas mãos ensebadas.
Todos calaram. Ainda voava o eco pelos cantos do altar quando Belinha avisou: é apenas
uma fedelha! Tarde demais. A outra, despojada dos trapos, empinou o orgulho, oferecendo o
seio, a boca e o mistério ao sacristão. Apenas homens, apenas uma menina, apenas as
duras penas dos humanos, a insuperável sina dos humanos, pensou o já-não-tão-beato
noviço, enquanto esfregava os beiços na fêmea.
Belinha, horrorizada, não se conteve. Atirou-se aos desavergonhados, esbravejando a
pouca-vergonha que já então não era mais de João. Os outros, pasmados, escorreram a
inveja disfarçada, emoldurando a cena toda com absurdos-que-vergonhas-onde-já-se-viu.
João nada fez senão arrebanhar o grupo porta afora, com o tesão entre as pernas.
Na igreja, a mácula descurou a castidade.
Acordou, ao lado de quem não valia a pena, com as entranhas secas, no quartinho atrás da
igreja, encarando o crucifixo que na parede aborrecia os demônios. No banheiro, lavou as
pregas larga-fendadas no balde, sabão de pedra e água benta; depois veio a toalha,
prometendo um nada-não, uma absolvição.
Vestiu os trapos, bateu a porta. Ajeitou a menina que ainda era, batizada, ganhando as
ruas com quinze anos.
Cássio Pantaleoni
Ser Brotinho
Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
Paulo Mendes Campos
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Deputado argentino renuncia após ser flagrado em 'cenas quentes' durante sessão (veja o vídeo)
Eduardo Galeano
Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem.
Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da minha boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas.
Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão.
E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.
Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, dizíamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca).
E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
Eduardo Galeano, no livro “Vagamundo”. tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2000.

















