segunda-feira, 23 de março de 2020


"Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça. Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vaza de fundo em que há raízes tortas. Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem. Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais boiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos. Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo."

 Zé Saramago
"Dia de chuva...
é para a gente rasgar cartas antigas
folhear lentamente um livro de poemas
não escrever nenhum..."

Mário Quintana



domingo, 22 de março de 2020

"Há muitos anos, um aluno perguntou à antropóloga Margaret Mead o que ela considerava ser o primeiro sinal de civilização numa cultura. 

O aluno esperava que Mead falasse a respeito de anzóis, panelas de barro ou pedras de amolar.

Mas não. Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga era um fêmur (osso da coxa) quebrado e cicatrizado. Mead explicou que no reino animal, se você quebrar a perna, morre. Você não pode correr do perigo, ir até o rio para beber água ou caçar comida. Você é carne fresca para os predadores. Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada por tempo suficiente para o osso sarar.

Um fêmur quebrado que cicatrizou é evidência de que alguém teve tempo para ficar com aquele que caiu, tratou da ferida, levou a pessoa à segurança e cuidou dela até que se recuperasse. “Ajudar alguém durante a dificuldade é onde a civilização começa” disse Mead.

Estamos no nosso melhor quando servimos aos outros. Sejamos civilizados neste período, mesmo não fazendo parte do grupo de risco."

Autor desconhecido
Estava a chover torrencialmente quando alcançou a rua, Melhor assim, pensou, ofegando, com as pernas a tremer, vai sentir-se menos o cheiro, Alguém tinha deitado mão ao último farrapo que mal tapava da cintura para cima, agora ia de peitos descobertos, por eles lustradamente , palavra fina, lhes escorria água do céu, não era a liberdade guiando o povo, os sacos, felizmente cheios, pesam demasiado para os levar levantados como uma bandeira. Tem isto o seu inconveniente, já que as excitantes fragâncias vão viajando à altura do nariz dos cães, como podiam eles faltar, agora que os donos se cuidem e alimentem, é quase uma matilha que segue a mulher do médico, oxalá um destes bichos não se lembre de adiantar o dente para experimentar a resistência do plástico. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta para dilúvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas, à espera de que o tempo estiasse. Não é bem assim, porém por toda a parte há cegos de boca aberta para as alturas, matando a sede, armazenando água em todos os recantos do corpo, e outros cegos, mais previdentes, e sobretudo mais sensatos, sustentam na mão baldes, tachos e panelas, e levantam-nos ao céu generoso, é bem certo que Deus dá a nuvem conforme a sede. Não tinha ocorrido à mulher do médico a possibilidade de que das torneiras das casas poderia não estar a sair uma gota do precioso líquido, é o defeito da civilização, habituamo-nos à comodidade da água encarnada, posta ao domicílio, e esquecemo-nos de que para que tal suceda tem de haver pessoas que abram e fechem a válvula de distribuição, estações de elevação que necessitam de energia elétrica, computadores para regular débitos e administrar reservas, e para tudo nos faltam os olhos.

José Saramago
"Ensaio Sobre a cegueira"

Fique em casa. Essa é a melhor arma contra esse vírus!

Charge com o quadro "Monalisa", de Leonardo Da Vince

Baleia salta ao lado de um barco pesqueiro

Essa imagem impressionante nos lembra o quão pequenos somos neste mundo.

Foto: Douglas Craft
A esperança é o sonho do homem acordado.

Aristóteles

Covid-19

Há imagens que não necessitam de palavras, o seu silêncio está rodeado de eloquência.

Versículos do dia

Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. 

sábado, 21 de março de 2020

Itália já prevê deixar pacientes de covid-19 com mais de 80 morrerem

Documento obtido pelo jornal inglês 'The Telegraph' mostra que diretrizes de guerra podem ser adotadas em breve por excesso de pacientes em UTIs

A Itália já se prepara para ter que escolher quem vive e quem morre durante a pandemia de covid-19. Um documento obtido pelo jornal inglês The Telegraph preparado por um gabinete de crise em Turim indica que o país terá de negar atendimento em unidades de terapia intesiva para pacientes com mais de 80 anos ou que apresentem más condições de saúde.

O novo coronavírus já fez mais de 2 mil vítimas fatais no país. O número de casos chega a quase 28 mil. A Itália está em quarentena total desde o dia 9 de março.

O documento foi preparado pelo Departamento de Defesa Civil do Piemonte e estabelece critérios para acesso aos serviços intesivos de saúde. Além dos idosos e dos que apresentem outras condições graves de saúde, também a possibilidade de sobrevivência dos pacientes será avaliada.

"É como seria se estivéssemos em guerra", disse um médico ouvido pelo jornal inglês.

De acordo com o Telegraph, o documento está pronto e aguarda o parecer de uma junta científica para ser enviado aos hospitais.



Há tanta suavidade em nada dizer e tudo entender...

Fernando Pessoa

Dr. Lucas Lenine - Projeções Estatísticas para Pombal-PB


Charge



Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo o dia 

José Saramago
Art by Giuseppe Gradella, In my veins