domingo, 23 de fevereiro de 2020

Ser Gagá

Ser Gagá não é viver apenas nos idos do passado: é muito mais! É saber que todos os amigos já morreram e os que teimam em viver, são entrevados. É sorrir, interminavelmente, não por necessidade interior, mas porque a boca não fecha ou a dentadura é maior do que a arcada.
 
Ser Gagá é ficar pensando o dia inteiro em como seria bom ter trinta anos ou, vá lá, quarenta, ou mesmo, ó Deus, sessenta! É ficar olhando os brotinhos que passeiam, com o olhar esclerosado, numa inútil esperança. É ficar aposentado o dia inteiro, olhando no vazio, pensando em morrer logo, e sair subitamente, andando a meia hora que o separa dos cem metros da esquina, porque é preciso resistir. É dobrar o jornal encabulado, quando chega alguém jovem da família, mas ficar olhando, de soslaio, para os íntimos da coluna funerária. Ser Gagá é saber todos os mortos inscritos no Time, em Milestones. Não é saber o Who is who, mas os WHEN. É só pensar em comer, como na infância. E em certo dia passar fome as vinte e quatro horas, só de melancolia. É, na hora mais ativa do mais veloz Bang-Bang, descobrir, lá no terceiro plano, uni ator antigo, do cinema mudo, e sentir no peito a punhalada. É surpreender, subitamente, um olhar irônico que trocam dois brotinhos, que, no entanto, o ouvem seriamente. É querer aderir à bossa nova, falar “Sossega Leão” e morrer de vergonha ao perceber o fora. É não querer, não querer, mas cada dia ficar mais necessitado de amparo do que outrora. É ter estado em Paris, em 19. É descobrir, de repente, um buraco na roupa e dar graças a Deus, por ser na roupa.
Ser Gagá é sentir plenamente que tudo que se leu, que se aprendeu, que se viu e se viveu não vale nada diante do que estua. Ser Gagá é estar sempre na iminência de ouvir em plena rua: “Olha o tarado!” É ficar contente em ver Chaplin e Picasso como os “mais charmosos” de sessenta! É chamar de menina à quarentona. É ter uma esperança senil nos cientistas. É reparar, nos mais jovens, o imperceptível sinal de decadência. É ficar olhando o detalhe, nos amigos; a lentigem nas mãos, o cabelo que afina, a pele que vai desidratando. Ser Gagá é o orgulho vão de ainda ter cabelo e poucos brancos! A vaidade tola de não ter barriga; a felicidade de ter dentes próprios. E fazer grandes planos quinquenais que espantam os jovens que acham cinco anos a própria eternidade, mas que o Gagá sabe que voam como voaram tantos, tantos, tantos.
É se apegar, desesperadamente, pelo tremendo impulso da existência, aos filhos, aos netos e aos bisnetos, embora saiba que eles não o querem, que a convivência com eles é apenas parte e total do egoísmo vital que o enterra. É sentir que agora, outra vez, está bem de saúde. É sentir a saúde ocasional. É carregar o corpo o tempo todo. É sentir o caixão no próprio corpo. É saber que já não há quem tenha prazer em lhe acarinhar a pele. É já não ter prazer em passar a mão na própria pele. É esquecer de coisas importantes e lembrar, sem saber por que, um gosto, um calor, uma palavra há tempos esquecidos.
Ser Gagá é procurar com afã a importância do cargo para de novo ser solicitado, embora pelo cargo. É sentir que nada do que faça, espantoso que seja, terá a importância do feito de outro homem, nos inícios da vida. Ser Gagá é quando dormir tarde se torna uma loucura, resgatada em feroz resfriado que dura uma semana. É ter sabido francês, e esquecido. É já não jogar xadrez como outrora! É olhar o retrato amarelado e lembrar que fotógrafo usava magnésio. É dizer, como um feito, que ainda lê sem óculos. É ouvir que alguém diz, quando passa na rua: “inda está firme!” É ficar galante e baboseiro na terceira taça de champanha. É casar com uma mulher mais jovem e querer dar logo ao mundo a inegável prova de um filhinho.
Ser Gagá é, num esforço mortal, aceitar tudo que inventam, todas as ideias, as modas, a música, o ritmo de vida, mas não deixar de dizer numa ironia profunda e amargurada. “Eu não entendo”. É sentir de repente o isolamento. É ficar egoísta, e amedrontado. É não ter vez e nem misericórdia.
Ser Gagá é fogo. Ou melhor, é muito frio.


Millôr Fernandes

Albert Einstein tocando violino em 1930, nesta foto colorida por computador. Einstein chegou a afirmar que, se não fosse cientista, seria músico. O grande físico nutria um "caso de amor" com a música, de maneira que essa fazia parte do seu dia a dia.




A vida sempre foi um grande desafio!


Humor


sábado, 22 de fevereiro de 2020

Velho, não.
Entardecido, talvez.


Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou .
E eu esperei
como o rio aguarda a cheia. 


Mia Couto

Existe uma coisa que uma longa existência me ensinou: toda a nossa ciência, comparada a realidade, é primitiva e inocente; e, portanto, é o que temos de mais valioso.

“Nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos."

Mia Couto
Temos de descobrir segurança dentro de nós próprios. Durante o curto espaço de tempo da nossa vida precisamos encontrar o nosso próprio critério de relações com a existência em que participamos tão transitoriamente.


Augusto Branco

"Por que tenho no céu sempre um sol a brilhar,
 por que tenho a cada amanhecer um novo começo para viver, 
por que posso compartilhar contigo as minhas dores
e as minhas maiores alegrias,
percebo que neste mundo tudo é graça, 
tudo vale a pena!"

Teatro Ica de Cajazeiras receberá Encontro de Gerações da Viola com famosa dupla de repentistas

Nesta sexta-feira (28) às 19h30min na Praça do Teatro ICA, Ivanildo Vila Nova e Raulino Silva realizam o show: Encontro de Gerações da Viola, realizado pela CZ Produtora e o Poeta Raimundo Borges.
 
José Dias Neto - DiáriodoSertão
O repente é, decididamente, uma tradição folclórica brasileira, cuja origem remonta aos trovadores medievais. Influente na região Nordeste do Brasil, o repente é uma mescla entre poesia e música na qual predomina o improviso. E a cantoria vai sempre nos encantar, pela beleza e espontaneidade de sua poesia e seus versos de improviso”.
A cantoria de versos improvisados ao som da viola é uma arte que floresceu no meio rural do Nordeste, especialmente no sertão, mas, sem sombra de dúvida, vem conquistando o público também das grandes cidades e não só das cidades do interior. E vem de forma crescente atraindo, cada vez mais, grandes plateias.
O produtor cultural Wanderley Figueiredo da CZ Produtora destaca a importância da cantoria de viola para a cultura nordestina.
“Os nossos primeiros repentistas, surgidos no sertão da Paraíba, beberam, com certeza, em outras fontes, assim como os cordelistas. Tanto os repentistas quanto os cordelistas iniciaram sua obra poética em quadras de sete sílabas, como se fazia no velho mundo. Com relação aos nossos repentistas, parece-nos provável que desde tempos anteriores ao seu surgimento no sertão da Paraíba, cantadores anônimos tenham perambulado Nordeste afora, ensaiando desafios, tocando viola e batendo pandeiro, porque essas coisas não surgem de vez”.
Nesta sexta-feira (28) às 19h30min na Praça do Teatro ICA, Ivanildo Vila Nova e Raulino Silva realizam o show: Encontro de Gerações da Viola, realizado pela CZ Produtora e o Poeta Raimundo Borges.
Ivanildo Vila Nova, nordestino de Caruaru-Pernambuco, Ivanildo Vila Nova é considerado o maior repentista do país. Destaca-se “pela sutileza de seus versos, pela síntese de seus improvisos e pela variedade temática”. Dividirá o palco com ele o poeta norte-rio-grandense, hoje morando em Caruaru-PE, Raullino Silva.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Foto: Philippe Pache

Trova

Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

Necrológico de sonho

Ex-deputado federal e ex-ministro do Superior Tribunal Militar, Flávio Bierrenbach era apenas um garoto de quinze anos de idade quando seu professor de Português determinou a lição do dia: cada aluno deveria imaginar como gostaria que escrevessem seu necrológico. 

O garoto Flávio foi o único a merecer nota dez, com a seguinte frase: – Morreu ontem aos 99 anos, vítima de marido ciumento, o ex-presidente da República Flávio Bierrenbach.
 
DiáriodoPoder

Fé, casamento e dinheiro são razões para prostitutas deixarem profissão

Três ex-garotas de programa contaram ao R7 suas histórias de vida. Em comum, elas são mães que batalharam pelo sustento dos filhos
 
Joyce Ribeiro, do R7
 
Vanessa foi garota de programa por 15 anos e hoje é empresária de sucesso
"Para cada lágrima derramada, um diamante. Quanto mais bate, mais forte você fica. Tudo que sou hoje é baseado na mulher que fui no passado." As palavras são da gaúcha Vanessa de Oliveira, de 44 anos, que por 15 anos foi garota de programa. Hoje ela tem 10 livros publicados sobre conquista e empoderamento feminino e mais de 10 milhões em vendas de produtos online.
Se engana quem acha que a história dela é uma exceção. "Minha história é um clichê. Estava grávida com 19 anos, não quis transferir meus problemas para a família e saí de casa para criar minha filha Ísis Gabriela, que tem hoje 25 anos. Eu não tinha pensão, então fui parar na prostituição por questão financeira mesmo. Não tinha estudo e não enxergava outra forma", revelou Vanessa.
Os cabelos longos e ruivos de Vanessa lembram a personagem Angélica Silva, a Poderosa, da novela "Amor sem Igual" da Record TV, interpretada por Day Mesquita. O passado da garota de programa ainda é um mistério, mas ela foi rejeitada pelo pai, que era amante da mãe dela e não queria abandonar a família já constituída. Viveu uma infância difícil, foi abusada por um homem e, desde então, não acredita ser digna de amor e respeito.
"Quero empoderar a mulher para ser dona do próprio dinheiro. O homem não será a solução para os problemas"
Vanessa de Oliveira, empresária
A vida de Vanessa também não foi fácil, mas o que a diferenciava de outras colegas de profissão era a forma como lidava com o dinheiro: "Eu via todos se arrebentarem à minha volta. Não usei o que ganhava com roupas, maquiagem, não destinava meu tempo para namorado. Eu fiz cursos, me tornei sexóloga, fiz faculdade de enfermagem e, mesmo ainda garota de programa, eu já era empreendedora". Com a prostituição, conseguiu dinheiro para comprar a casa, ter carro e adquirir conhecimento.
A empresária relata que parou de contar com quantos homens saiu ao atingir a marca de 5 mil, mas diz que nunca "teve auto culpa por ser um trabalho". Ela define a profissão “como de coragem porque você não sabe quem está atrás da porta". Ela atuou em saunas e boates, mas foram os anúncios em jornais que atraíram mais clientes: "era mais rentável".
Vanessa tem 10 livros publicados, que tratam de conquista
Vanessa decidiu deixar de ser prostituta em 2015 quando concluiu que os trabalhos com marketing online começaram a dar mais dinheiro do que os programas. Ela garante que toda a vivência foi transformada em aprendizado. Os temas viraram 15 cursos online, livros (o mais novo ´Xeque-mate: a virada da rainha' será lançado em breve em Las Vegas - EUA) e palestras. “Hoje tenho 3.000 alunas online por mês. Quero empoderar essa mulher para ser dona do dinheiro dela, assim ela pode escolher o relacionamento que quer ter. Ela não vai mais olhar o homem como solução para os problemas”, explica Vanessa.
A filha sempre foi sua prioridade. “No início, tudo que eu pegava para comprar, eu contava quantos sacos de leite daria, esse era meu parâmetro. Hoje eu não olho mais o preço das coisas”. Já foi casada, traída, está agora namorando e diz não ter medo de homem. “O cara que se aproxima de mim já tá sabendo de tudo. Ele tem que ter culhão porque sabe o tamanho dessa mulher”, brinca. Vanessa de Oliveira tem 24 funcionários na empresa, mora em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, e se define como “empreendedora e dona da porra toda”.
Passado ficou para trás
Nem todas as ex-garotas de programa lidam muito bem com o passado. Patrícia, de 37 anos, usava o codinome Natasha e afirma que até hoje a maioria da família não sabe dessa fase. “Achavam que eu trabalhava em São Paulo. Eu escondia, só quem sabia na época era quem morava comigo”, conta.
Patrícia estava em um relacionamento que não deu certo e conheceu a boate em um anúncio: “Fui por causa de dinheiro. Por ser nova (tinha 20 anos) e ter o corpo bonito, queria dançar”. Ela passou a morar no trabalho. A necessidade de se sustentar a levou a fazer programas. “Já estava lá, tinha fama. Não era absurdo. Minha vida era bagunçada e não tinha a intenção de ter uma vida tradicional”, justifica.
Foi garota de programa por 7 anos, costumava sair com até 13 homens em uma só noite. Nesse período, comprou casa, carro, mas também conheceu as drogas. “Quando você vive na noite, não tem muito objetivo. Algumas trabalham para manter o status, colocar silicone, boas roupas. Eu era contra drogas e me viciei em cocaína e álcool. Me envolvi até com traficante”, explica.
“Me viciei em cocaína e álcool. Quando a gente se converte, enxerga as consequências das escolhas"
Patrícia, comerciante
A mudança aconteceu quando Patrícia engravidou. O plano era voltar para a boate depois que o filho nascesse, mas o pai da criança, que até então era um cliente, assumiu o relacionamento. “A cocaína eu parei por causa da gestação. O álcool foi por causa da minha fé. Tive uma crise, síndrome do pânico e, assistindo TV, vi o testemunho da Igreja Universal. Pedi pro meu esposo e ele me levou”, lembra.
Depois que Patrícia se converteu, não voltou mais à boate. Quando o filho, hoje com 11 anos, completou 9 meses de vida, ela começou a trabalhar com o marido. “Eu não tenho vergonha, mas quando a gente se converte, vê as consequências das escolhas que fez quando era rebelde. Criei uma situação e não segui o que meu pai ensinou”, conclui.
Após deixar a prostituição, Patrícia já teve um escritório e hoje é proprietária de um restaurante e de uma esmalteria e afirma que nunca mais abandonou a igreja.
Leninha é voluntária na associação de prostitutas na Paraíba
Das boates ao voluntariado
Ao que tudo indica, a personagem Poderosa da novela deve deixar as ruas e os programas para ficar com o agricultor Miguel, interpretado por Rafael Sardão. Ele já a salvou após ser agredida e a trata com carinho. Na vida real, Joseane Margarida Silva Félix, conhecida por todos como Leninha, largou a profissão depois de 10 anos como prostituta porque se casou com um cliente. “Meu marido trabalhava, daí eu não precisava mais. A gente se ajudava. Comecei a trabalhar como camareira na pousada onde eu costumava fazer programas”, revela.
Leninha, hoje com 50 anos, já tinha dois filhos quando começou se prostituir: “Foi por necessidade. Era nova, não tinha marido. Não tenho vergonha, era meu ganha-pão. Mantive minhas duas crianças e tive mais seis. Criei com o dinheiro da prostituição. Eu batalhava. Minha vida era boa, quem não gosta de dinheiro?”, destaca.
Os clientes a encontravam num bar ou em uma praça de João Pessoa, na Paraíba. Em nenhum momento se coloca como vítima: “Quem está na zona não é coitadinha. Está lá porque quer ou porque gosta. Nunca escondi da minha família, mas eu dispensava clientes mais próximos de parentes”.
Ela lembra que alguns clientes se recusavam a usar camisinha. Uma das filhas, hoje com 27 anos, não sabe quem é o pai. “Eu tenho certeza que sou a mãe”, sorri. Os filhos mais novos, com 15, 16, e 19 anos, são do relacionamento com o marido. “Ele era meu cliente e enfrentou a família para que aceitassem uma mulher de cabaré, cheia de filhos”, ressalta.
“Meu marido era meu cliente e enfrentou a família para que aceitassem uma mulher de cabaré, cheia de filhos”
Leninha, voluntária na APROS
Há 18 anos, Leninha deixou a prostituição. Há seis, é voluntária na APROS (Associação de Prostitutas da Paraíba), onde oferece a garotas de programa um tipo de apoio e acolhida que não recebeu quando exercia a profissão. “Levo para fazer exames médicos, damos camisinha e gel lubrificante. Na associação, tem palestras educativas e cursos”.
Ela acredita que ser prostituta atualmente é mais difícil: “Hoje tem as drogas. Isso é uma febre. Na minha época, não. As mulheres queriam ganhar dinheiro para levar para a família, para casa. Hoje elas são mais novas e têm outros interesses”.
Leninha mora em Bayeux, na região metropolitana de João Pessoa. Não tem casa própria, mas se orgulha em dizer que “não precisou pedir nada pra ninguém”. É mãe de oito filhos, seis deles casados, e avó de seis crianças.