quarta-feira, 4 de dezembro de 2019



Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.  

Manuel Bandeira
Há pessoas que nos falam
 e nem as escutamos,
 há pessoas que nos ferem 
e nem cicatrizes deixam
mas há pessoas que simplesmente
 aparecem em nossas vidas 
e nos marcam para sempre.
 
Cecília Meireles 

Frase

"Amor só descansa quando morre. Um amor vivo é um amor em conflito". 

Paulo Coelho

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019


Um ritual de respeito ao doador de órgãos, nos Estados Unidos. Veja o vídeo.

Nas pesquisas para o Podcast Café Brasil 688 sobre doação de órgãos, me deparei com uma cena que me derrubou da cadeira. Até mesmo relutei em publicar aqui, mas acho que merece.
Nos Estados Unidos, em diversos hospitais, a cada vez que uma doação de órgãos ocorre, os funcionários perfilam-se em silêncio enquanto a maca com o doador passa pelo corredor à caminho da sala de retirada dos órgãos.
É uma homenagem ao paciente que fará a doação.
No vídeo emocionante que ilustra este post, os funcionários do St. Luke's Meridian Hospital, homenageiam um homem de 53 anos que é transportado da UTI para a sala de remoção dos órgãos, onde os aparelhos que o mantinham vivo seriam desligados.
Esse gesto chama-se Caminhada do Respeito, e é uma forma de honrar o doador e ajudar a consolar a família durante aquele momento difícil.
Isso que você sentirá ao ver o vídeo eu senti também.
E a tempestade cerebral que virá em seguida, idem.


Luciano Pires

No lugar errado

Então senador do MDB catarinense, Evilásio Vieira resolveu fazer solitário comício numa pequena cidade de colonização alemã, onde não conhecia ninguém. 

Após o seu discurso, de crítica à ditadura, um velhinho, o padre local, pediu a palavra. Ele adorou. Mas o padre não esta ali para apoiar sua ladainha: 

“Tudo isso serr mentirra. Goverrno fazerrr Mobrral, Trransamazónico, oposiçon non fazerr nada. Só falarr. Todos deverr irr dorrmirr.” 

A pequena multidão, obediente, foi embora. Evilásio também.
 
 DiáriodoPoder

Os planos do menino de 9 anos que está terminando a faculdade: ‘Não tenho ideia de como cheguei aqui"

Após nove meses de estudo, ele vai se graduar aos 9 anos em engenharia elétrica na Universidade de Tecnologia de Eindhoven, na Holanda

Laurent Simons vai se tornar em dezembro o mais jovem graduado do mundo 
Laurent Simons tinha 4 anos quando entrou na escola primária e, antes de seus colegas chegarem ao ensino médio, ele chegou à universidade. Aos 9 anos.
O jovem belga levou um ano para terminar o primeiro período da escola primária, como a maioria dos estudantes. Mas depois o ritmo acelerou e no ano seguinte ele concluiu de só uma vez o período que vai do segundo período ao sexto.
Aos 6 anos, já na fase seguinte de sua formação, ele concluiu em 18 meses uma etapa na qual outros estudantes passariam seis anos.
E então ele decidiu descansar. Um pouco.
Aos 8, ele tirou uma "folga" de seis meses para passar um tempo em casa. Oito meses depois, se candidatou a uma graduação universitária.
GRADUAÇÃO EM NOVE MESES
Agora, após nove meses de estudo, ele vai se graduar aos 9 anos em engenharia elétrica na Universidade de Tecnologia de Eindhoven, na Holanda.
Mesmo sem entender direito o que está fazendo.
Ao ser perguntado pelo programa Newsday, da BBC, por que ele buscava um diploma universitário aos 9 anos de idade, Laurent Simons afirmou: "Não tenho ideia".

ENGENHARIA, MEDICINA OU AMBOS?
Atualmente, o jovem belga está interessado em saber como a tecnologia pode ajudar o corpo humano: seu projeto de graduação passa pela conexão entre cérebro e chip.
Um dispositivo desse tipo poderia medir e monitorar milhares de neurônios ao mesmo tempo.
Oriundo de uma família de médicos, Simons agora quer estudar medicina e fazer um ph.D., mas suas ambições vão bem além de qualificações acadêmicas.
"Meu objetivo é criar órgãos artificiais", afirmou, em referência aos dispositivos que um dia podem substituir partes humanas, como um coração ou um rim, e eliminar a necessidade de transplantes.
"Na verdade, meu objetivo é estender a vida. De outras pessoas, incluindo a dos meus avós."
Foram seus avós, aliás, que identificaram primeiramente o potencial do jovem, antes mesmo de ele ir à escola.
"Ele foi criado pelos avós, que notaram algo especial sobre ele. Mas pensávamos que, como outros, eles só estavam orgulhosos do neto, e não levamos muito a sério", relembra o pai do jovem, Alexander Simons.
Jovem gosta de se gabar de suas entrevistas na TV, relata seu pai 
Mas quando os professores do ensino primário falaram a mesma coisa, os pais passaram a tentar entender por que ele era tão avançado.
Mesmo especialistas ficaram surpresos com o nível de evolução do garoto.
Além de ter memória fotográfica e um quociente de inteligência (QI) de 145, o jovem também tem boas habilidades analíticas. No início, ele amava matemática e ciência, mas não demonstrava muito interesse por letras.
Segundo o pai dele, o garoto se mostrou algumas vezes relutante em ir para a escola, querendo apenas ficar em casa para brincar ou ir à praia.
Mas passou a ser bastante metódico depois de chegar à universidade, adotando uma rotina intensa.
"Na segunda-feira, ele é apresentado à disciplina. Na terça, ele vai ao laboratório. A quarta é separada para estudos em casa, onde lê por oito horas. Ele usa a quinta-feira para tirar dúvidas na faculdade e na sexta-feira ele faz provas", relata seu pai.
"Outros estudantes levariam de nove a 12 semanas para completar esse ciclo."
INFÂNCIA
Para garantir que Laurent está confortável e aprendendo em seu próprio ritmo, na maioria do tempo ele recebe aulas em uma sala separada dos outros graduandos, que acabaram de deixar a adolescência.
Seu pai afirmou, no entanto, que o filho não se afastou das alegrias da infância e não sofre qualquer tipo de pressão em sua trajetória acadêmica.
Ele já é famoso, com mais de 42 mil seguidores no Instagram, onde publica fotos passeando com o cachorro, nadando e concedendo entrevistas.
"Ele se gaba com os amigos quando aparece na TV", disse seu pai.
PRODÍGIO
Mozart compôs música aos 5 anos. Picasso concluiu sua primeira pintura aos 9. Mas muitas crianças prodígios tornam-se pessoas "normais" quando chegam à idade adulta.
Isso será diferente com Laurent Simons?
"Ele sempre cumpre o que promete", conclui seu pai.
 
BBC News

O salto da Paraíba no registro de patentes

Universidades do Estado lideram ranking, com foco em pesquisas que enfrentem problemas da região

Por que a Paraíba está no topo das patentes 
Nas mãos de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o xiquexique, cacto do semiárido, vira farinha, suco e geleia, ricos em minerais e baratos. Invenções como essa levaram a UFPB ao topo do ranking de pedidos de patentes no INPI, superando a Unicamp.
A liderança se deu, segundo a professora Rita Queiroga, porque a universidade criou núcleos de inovação e concentrou esforços em áreas que contribuam para enfrentar os problemas do Nordeste, como o combate ao mosquito da dengue. Além disso, incentivou a ida de muitos professores e alunos ao exterior, que passaram por processos de capacitação e voltaram.
A UFPB assumiu o primeiro lugar em patentes em 2018, com 94 depósitos. Com isso, o Estado da Paraíba está no topo do ranking do INPI, já que a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) manteve-se na segunda posição, com 82 depósitos.
 
Por Anaïs Fernandes — ValorEconômico

domingo, 1 de dezembro de 2019



Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.

Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem.

A natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas.

Johann Goethe

Inocência

Criança ingênua, o dia inteiro,
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.

Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.

Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.

E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.


José Martins Fontes

Rosas vermelhas

Aquele homem cabia inteiro dentro dos olhos dela. Cabia dentro de suas mãos macias ansiosas por acarinhar. Seria capaz de envolvê-lo todo com mãos e olhares. Não, os olhos não vêem nada quando as mãos agarram feito heras pelos muros.

Aquele homem cabia dentro de seus desejos. Desnudo sob lençóis de seda, ela o queimaria com a grande labareda de sua vida. Como seria o toque de suas mãos? seu cheiro... sua voz ao ouvido?

Por ele seria capaz de cama, mesa e banho. Mais que isso, comida e roupa lavada. Seria capaz de passar e engomar aquelas camisas brancas uma por uma, enquanto ele lhe beijasse a nuca achando sensual seu jeito despojado de dona de casa e lhe perguntasse em sussurros "está vestida assim pra mim?" Claro que sim. Vestida e desvestida, sempre para ele. Aí, ele se aproveitaria da fragilidade dela e realizaria suas fantasias de macho atrás das portas e janelas. Será que aquele homem de metro e oitenta fantasiava mulheres frágeis e carentes? Por supuesto que no. Parecia mais com uma rocha inabalável. Um homem de alma gelada e impenetrável. Individualista, cheio de si... um verdadeiro narciso.

Bem, não podia reclamar tanto, até que ele demonstrou interesses. E ainda perguntou se ela estava compreendendo seu ponto de vista. "Sim! Não!" Ela atrapalhou-se toda ao dizer o que pensava sobre relações. Mulheres especiais se atrapalham. Entretanto os homens demoram muito para fazer essa descoberta. Homens, tão diretos e objetivos! Considerou-a tensa. Tensa? Que idéia! Só queria as coisas formalizadas. Era romântica, uai... "Romântico eu também sou, querida". Sentiu-se ingênua. Não, sentiu-se infantil mesmo. Nem sabia mais o que era referencial de romantismo. Como poderia pensar em compromissos e formalidades depois da virada do século? Agora as coisas aconteciam espontaneamente ao seu tempo. "Compreende?" perguntou ele sem muito interesse na resposta. Mas ela sentia a ansiedade pulsando na pele e precisava responder para manter o equilíbrio da conversa e deixar clara sua reputação. E falou. Seus argumentos jamais haveriam de convencê-lo, todavia foi autêntica. Não iria para cama com ele sem se estabelecer vínculos de intenções futuras. Ir para cama? Não, ele falou em noite de amor. Assim sem muitos rodeios, do mesmo modo que a convidou para o jantar.

Enquanto ela falava, ele distraiu-se várias vezes a olhar os transeuntes. Que tédio! Perdera a noite investindo numa mulher com conceitos antiquados e ultrapassados. Reputação! Como é que ele iria adivinhar? Julgava não mais existir essa espécie de mulher.... E pensar que ele a escolhera a dedo. A mais bela mulher da noite, e como dançava! Esperou uma semana para o encontro, estava cheio de expectativas.... Pensou em todas as possibilidades! Seria capaz de a enlouquecer entre quatro paredes. Beijaria de leve seu pescoço esguio, a orelha, a boca... faria massagens, carícias e surpresas das quais ela jamais se esqueceria. Ela iria queimar de febre e devolveria a ele os olhos esverdeados acesos, emoldurados pelo castanho avermelhado do cabelo. Seria capaz de carregá-la no colo para cama, ou simplesmente apreciaria seu andar de bailarina, que não é mais bailarina mas continua com a graça de quem nunca perdeu o gingado. Gingado? Não, deveria ser vocação. Vocação para a leveza como uma borboleta que movimenta as asas pousando de flor em flor. Seria capaz de enviar a ela uma dúzia de rosas vermelhas no dia posterior. Talvez fossem melhor rosas brancas... não, vermelhas mesmo. Mulheres adoram rosas vermelhas. E por que não? Só não daria o número do telefone, isso não. Ela poderia ligar e insistir num domingo no parque, ou quem sabe num jantar íntimo preparado por ela. A Segunda opção poderia ser irresistível. Ela num tubinho preto tomara-que-caia... jantar à luz de vela... Mas, e se ela inventasse de apresentar os filhos, mostrar o cachorro , o gato... fotos antigas, ela dançando no Municipal... Não! Não queria perder tempo com isso. Depois ainda poderia pensar que ele era seu namorado. Coisa mais antiga, uma mulher ligando para seu trabalho, perguntando onde ele havia jantado, passado a noite... isso não! Sabia quanto custava a liberdade. Não teria mais paciência para marido, namorado ou qualquer papel semelhante. Num gesto sutil chamou o garçom e pediu a conta.

Ela baixou os olhos tristemente. Sobre a mesa, esculturas que havia feito com miolos de pão. Esmagou com o dedo uma formiga ruiva e solitária que surgiu rastejante sobre a mesa como a implorar uma migalha. Oh Deus! Migalhas, era isso. Na toalha branca o rastro nojento. Era o corpo. Pão partido, vinho derramado. Jamais teriam essa comunhão. Veio a indignação. Retirou-se sem esperar qualquer gentileza. Apenas algumas palavras jogadas ao vento, como "obrigada pelo convite" e "obrigado pela companhia". Poderia ter resistido um pouco mais, mas era muito delicada. Os delicados têm pouca resistência. De resto, sei apenas que ela passou o dia seguinte arrumando a casa. Cortando, delicadamente, com uma tesourinha de unhas, os caules de um bouquet de rosas vermelhas. Fazia isso com extremado prazer. Depois, colocava-as uma após outra dentro de um jarro de água. Todas com o mesmo corte oblíquo e o mesmo tamanho. Obrigou-se a compreender também que as rosas não falam, jamais. Nem mesmo as vermelhas.

Lucilene Machado

Primeiro dia

Primeiro dia de aula. Pastinha na mão, laço de fita no cabelo e a vontade de descobrir o mundo. O que havia lá fora? O mesmo aconchego da casa de mãe, pai e irmãos? Lá fora... muita gente e ela sozinha ou muita gente e ela também?

Partiu como um novo cabral. Menininhas engomadinhas rezando e rezando uma vida inteira para o Deus que ninguém via.

Perto da capela, um bebedouro engraçado. A gente aperta e a água espirra. Água gloriosa se elevando a alturas desconhecidas. Maravilha! Mundo interessante este da escola. com água dançando no ar e na boca.

— Onde já se viu! Hora de rezar...

Primeiro dia de promessas desfeitas. A menina saía da capela e a puxavam de volta. Nada de água dançando, espirrando, numa deliciosa festa de descoberta.

— Mamãe, nunca mais vou à escola.

— Por quê, filha?

— Não deixam a gente beber água.

E não voltou mesmo, a não ser muitos anos depois, com lágrimas nos olhos — água que aprendera a fabricar.

MÁRCIA CARRANO