sábado, 23 de novembro de 2019

Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.

E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser”.

Charles Baudelaire



O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro




Por sermos imperfeitos

A perfeição seria o tédio, e desse, sim, eu poderia morrer, para bocejar até o final dos tempos contemplando a ordem celeste: anjos rechonchudos naquela disciplina, ninguém dando um escorregão, ninguém botando a língua pra São Pedro, nem o próprio solta um palavrãozinho ao bater o pé em uma nuvem mais escura, o raio lhe chamuscando o calcanhar?

Eu quando criança morria de medo dessa ordem impenetrável na qual não haveria lugar para mim.
Porque somos imperfeitos, podemos melhorar. Podemos aprender formas melhores de convívio e de amor. Podemos até mesmo superar adições, que são a servidão do corpo e da alma.

Outro dia conheci um grupo de homens e mulheres, dos mais variados níveis culturais e sociais, que fizeram da imperfeição a sua razão de vitória. Das pedras que tiveram e têm de quebrar construíram seu caminho, alguns até seu castelo. Gente que se livrou — ou ainda luta para se libertar — da adição química, qualquer que seja, não importa se álcool ou outra droga.

Reúnem-se em grupos nos quais se exerce a humildade, a sinceridade, o respeito, e a fé em algo melhor: senti-me privilegiada podendo estar com eles, mais para aprender do que falar.

Nós, que não vivemos o drama da adição química, como somos ignorantes, preconceituosos, rápidos em condenar e superficiais no compreender. Com isso disfarçamos nossos próprios medos, em lugar de os enfrentar como fazem esses anônimos guerreiros.

Fingimos ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, sacanagem, política, ninguém levando porrada — como diria Fernando, o Pessoa. Não estamos nem aí. Botamos tapa-olhos para não enxergar o que se passa, vestimos máscaras para que a verdade não nos cuspa na cara, e nos defendemos do rumor que nos ameaça, botando fones de ouvido enquanto caminhamos na esteira para ficarmos em forma.

Mas temos medo e solidão; como país, presenciamos escândalos nunca antes vistos, temos nossa confiança duramente abalada. A violência é cotidiana, o narcotráfico nos ameaça, mais pessoas foram assassinadas por aqui do que nas guerras ao redor do mundo nos últimos anos. Andamos encolhidos dentro de casa.

Estão cada vez mais altos os muros do medo e do silêncio.

Não acho que antes fosse o paraíso, mas nunca vi tão escrachada corrupção e tão aberta impunidade.

A gente se lamenta, dá palpites e entrevistas, organiza seminários. Resultado? Parece que nenhum. Melhor não saber a quem a situação interessa, nem por que sugestões e explicações insólitas aparecem e desaparecem das páginas de jornal e telas de televisão.

Quando nada se pode fazer, optamos pela resignação. Mas sou da tribo (não tão pequena) dos que não se conformam. Não acredito em revolução, a não ser pessoal. Em algumas coisas sou antipaticamente individualista. Não sou boazinha, e quem julga meus livros bonzinhos está lendo com os óculos da sua própria burrice. Mas acho que quando o complicado não resolve pode-se tentar o mais simples. Às vezes ser simples é original.

Cada vez que, seja por trágica dependência, seja por aquilo que minha velha mãe chamava “fazer-se de interessante”, um de nós consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido com a turma) está botando no cano de uma arma a bala — perdida ou não — que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador. Nosso filho, quem sabe.

É uma afirmação dura? É. A vida pode ser muito dura, e, pior que isso, cada um de nós é responsável.
Num jantar, há muitos anos, um conhecido desabafou, com grande culpa, que costumava fazer-se de pai amigão fumando maconha com os filhos quando adolescentes, para estar mais próximo deles. Um dos meninos sofreu gravíssimos problemas de adição pelo resto da vida.

O pai era culpado? Não creio. Nas tragédias familiares só há vítimas, embora alguns devam ser mais responsáveis do que outros. A vida não é tão simples, nem eu sou, de longe, moralista. Mas a gente brinca demais à beira do abismo.

Voltando ao começo deste artigo: os que me chamaram para falar, ouvir e aprender, renovaram minha convicção de que na questão da violência ligada ao narcotráfico, portanto ao uso de drogas, sermos os eternos queixosos que não fazem nada é outra forma de violência — perigosa porque sutil.

É colaborar com os que vão nos atingir no coração: diretamente com uma bala, ou com a morte praticamente anunciada de alguém que amamos.


— Lya Luft, no livro “Em outras palavras”. Rio de Janeiro: Record, 2011
Quero morar numa cidade onde se sonha com chuva. Num mundo onde chover é a maior felicidade. E onde todos chovemos.

Mia Couto

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O que nos leva a escolher uma vida morna? A resposta está estampada na distância e na frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos bom dia, quase que sussurrados.

Luis Fernando Veríssimo




O fácil e o difícil

 (Vik Muniz por Vik Muniz)

Há um estilo de cantoria de viola chamado “Quadrão de Meia Quadra” que é uma beleza para um cantador “se amostrar” diante dos leigos. É uma estrofe um tanto longa, e que sempre vai mais ou menos nessa pisada:

“Se eu disser que é meia noite, você diz que é meio dia
se eu disser que é meio balde, você diz meia bacia
se eu disser que é meio João, você diz meia Maria
se eu disser meia Maria, você diz que é meio João.
Se eu disser que é meia areia, você diz meio torrão
se eu disser meio torrão, você diz que é meia areia
se eu disser que é meia quadra, você diz que é quadra e meia
e se eu disser que é quadra e meia, você diz que é meio quadrão.

É um estilo marcante, e foi citado indiretamente por Zé Ramalho em “Avôhai” (“E se eu disser que é meio sabido, você diz que é meio pior...”).

Já tirei muita onda diante de pessoas leigas, cantando de improviso este tipo de verso. Porque na verdade não tem o que inventar, é só essa cantilena de meio-isso-meio-aquilo, substituindo as palavras-chave para encaixar nas rimas obrigatórias. E pronto.

Mas as linhas são longas, são cantadas com certa rapidez atropelada, e envolvem jogos-de-palavras cuja estrutura simples não é percebida à primeira vista, e então parece que é o troço mais difícil do mundo. Já cantei muita meia-quadra, sozinho, ao violão, diante de amigos que saíam dizendo que eu era o maior repentista do Nordeste.

Muito mais difícil do que uma meia-quadra é improvisar uma mera sextilha, onde você tem que tirar seis versos do Nada, do Zero Absoluto, e tudo tem que fazer sentido.

Em toda atividade existem coisas assim. No futebol, por exemplo, um passe de calcanhar parece mais difícil, e provoca mais sensação, do que um passe de 30 metros que vai certinho no pé do outro cara. Este último, por ser feito “de frente”, parece muito mais fácil, e não é.

Vik Muniz, artista plástico paulistano radicado em Nova York, resumiu esta questão numa entrevista à revista Zupi de novembro, de maneira exemplar:

“Existem trabalhos que são gostosos de fazer por serem fáceis e parecerem difíceis, e existem trabalhos gostosos de ver prontos por serem difíceis e parecerem fáceis”. 

No primeiro caso está a meia-quadra, que qualquer cantador mediano canta durante meia-hora sem nem sequer suar a testa.

Muniz observa que quando um trabalho é difícil ele não é bom de fazer: é bom de ver pronto. Isto bate certinho com uma frase que já vi atribuída a Armando Nogueira e a Zuenir Ventura: “Não gosto de escrever. Gosto de ter escrito”. Certas coisas nos dão um orgulho imenso depois que estão existindo, mas só Deus sabe o sofrimento que foi para botá-las de pé. Qualquer elogio a elas, contudo, sempre nos parece pouco, porque só nós sabemos o quanto de suor nos custaram.

Por outro lado, fazer uma meia-quadra e receber mil elogios nos dá complexo de culpa, porque quem elogia está superestimando a dificuldade da façanha, e se iludindo quanto ao talento de quem a praticou.

Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Ninguém tem ombro
para suportar sozinho o peso de existir.

Mia Couto

Carrego candelabros na alma. Luminárias. Luz de rimas. Nenhuma ventania há de apagar a poesia que há em mim!

Teófilo Júnior

Quando a lágrima escorre
Pela curva do meu rosto
Na boca sinto seu gosto
Enquanto ela me socorre.

Pois de chorar ninguém morre
Ninguém quebra, só inclina.

Todo choro é uma vacina
Que pode está nos salvando.

O que aprendi chorando
Sorriso nenhum ensina.

Bráulio Bessa

quarta-feira, 20 de novembro de 2019


Ovo frito

Gosto muito de ovo. Ovo frito. Ovo escaldado, com pão torrado. Coisa boba, o fato é que comecei a pensar sobre as razões por que gosto de ovo. Lembrei-me…

Meu pai era viajante. Passava a semana fora de casa. Voltava às sextas-feiras, no trem das oito. Noite escura, o trem das oito vinha apitando na curva, resfolegando de cansado, expelindo enxames de vespas vermelhas, chamuscava uma paineira, entrava na reta, passava a dez metros da nossa casa, todos nós estávamos lá, o pai com a cabeça de fora, sorrindo, e todos corríamos para a estação. Ele vinha com fome e sujo. Água quente não havia. Mas não tinha importância. Da leitura do Evangelho havíamos aprendido de Jesus, no lava-pés, que quem está com os pés limpos tem o corpo inteiro limpo. A coisa, então, era lavar os pés. E esse era o costume geral lá em Minas. Minha mãe esquentava água no fogão de lenha, punha numa bacia e eu lavava os pés do meu pai. Depois de limpo, ele se assentava à mesa e o que tinha para comer era sempre a mesma coisa: arroz, feijão, molho de tomate e cebola, ovo frito e pão. Ele me punha assentado ao joelho e comia junto.

Ah, como é gostoso comer pão ensopado no molho de tomate, pão lambuzado no amarelo mole do ovo! Era um momento de felicidade. Nunca me esqueci. Acho que quando enfio o pão no amarelo mole do ovo eu volto àquela cena da minha infância. Os poetas, somente os poetas, sabem que um ovo é muito mais que um ovo…

Rubem Alves

Rubem Alves, crônica do livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.
São Paulo, 12 de agosto de 1987

Querida mãe, querido pai,

Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos — quase quarenta — anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês — que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio — que é tão ou mais delicado.

Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida — como quem olha de uma janela — mas não consegue vivê-la.


Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco — todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado — nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.
Amo vocês, seu filho.

Caio

Caio Fernando Abreu, no livro “Caio Fernando Abreu: o essencial da década de 1980”. Nova Fronteira, 2014.