sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ex-presidente Lula cultiva o pragmatismo em grau máximo



"Eles vão perceber que não dá para nadar teoricamente. Entra na água e vai nadar, porra". Isso aí, o trecho da entrevista consagrado às "frescuras do PSOL" (Folha, 20/7), é puro Lula. O ex-presidente cultiva o pragmatismo em grau máximo, devotando solene desprezo tanto à ideologia quanto a valores e princípios. Foi assim que ele nadou –e, no percurso, afogou a esquerda brasileira.

Lula, o Pragmático, opera segundo as circunstâncias. No primeiro mandato, diante das desconfianças do mercado, conservou-se fiel à política econômica ortodoxa herdada de FHC, completando-a com a política social de agressivas transferências de renda, que se destinava a enraizar o lulopetismo no eleitorado pobre. A fórmula bifronte seguia as receitas do Banco Mundial. Não era "de esquerda" e nem mesmo social-democrata. Mas a esquerda brasileira, um organismo lulodependente, celebrou-a como uma revolução de emancipação popular. "Quando Lula fala, o mundo se ilumina", disse Marilena Chaui.

O sucesso do primeiro movimento, associado à evolução do ciclo internacional de commodities e ao trauma político da crise do "mensalão", provocou a substituição da fórmula econômica. O nado peito, lento e constante, deu lugar ao esforço extremo do nado borboleta. No segundo mandato, Lula convocou Guido Mantega et caterva para soldar uma santa aliança entre o Estado e o alto empresariado. Configurou-se, ali, o capitalismo de Estado lulopetista, uma versão modernizada do programa econômico moldado por Vargas e, mais tarde, aprofundado por Geisel.

"Quando Lula fala...". A esquerda interpretou a mudança como a revolução verdadeira: uma aurora de ruptura. Dilma, a sucessora indicada pelo "dedazo", tingiu a escolha pragmática com as tintas de suas obsessões ideológicas. Do teclado irresponsável de seus assessores econômicos nasceu a expressão "Nova Matriz Macroeconômica". Eike Batista definiu o BNDES como o "melhor banco de investimento do mundo", uma opinião certamente compartilhada por Marcelo Odebrecht e Joesley Batista.

A história da ascensão e declínio do capitalismo de Estado lulopetista é contada em dois registros diferentes, mas complementares. A narrativa econômica de uma depressão mais funda que a dos anos 30 evidencia o curto horizonte do nado borboleta. A narrativa policial e judicial da Lava Jato ilumina uma falência ética calamitosa. Lula, o pragmático oportunista, foge das implicações de ambas, escondendo-se atrás da pobre Dilma, no caso da primeira, e desviando os holofotes para o PT, um de seus sacos de pancada prediletos, no caso da segunda. O gato de sete vidas continua à tona, apoiando-se nos cadáveres que boiam ao seu redor para não afundar.

Luiza Erundina reclamou das críticas lulistas ao PSOL, instando o ex-presidente a atacar os "parceiros de direita que o traíram". Mas ninguém traiu Lula. O PMDB, tão pragmático como ele, foi fiel a si mesmo, agarrando-se ao mastro do poder. Marcelo Odebrecht resistiu o quanto pôde, até o chão afundar. Já Joesley Batista mantém a antiga parceria, selecionando politicamente os alvos prioritários de sua delação. O que Erundina recusa-se a enxergar são os frutos podres de uma política econômica que forma o denominador comum da esquerda brasileira.

A pátria de Lula é Lula, e nenhuma outra. Ele calcula o que fala –e fala exclusivamente aquilo que interessa à sua carreira política. Mas, num ponto específico, tem razão: "não dá para nadar teoricamente". O PSOL, alternativa esquerdista a um PT dizimado pelo lulismo, repete incansavelmente as orações ideológicas de uma bíblia encanecida e ajoelha-se diante das lápides de seus estimados tiranos, que se chamam Castro, Che ou Chávez. O legado de Lula é uma esquerda prostrada, de olhos fixos no passado. Do ponto de vista da nossa democracia, eis um desastre ainda maior que os outros.

Demétrio Magnoli


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Hospedando Frei Damião

As missões de Frei Damião eram um acontecimento em qualquer cidade do brejo ou do sertão paraibanos. Nos anos 1950 Borborema era premiada com a visita do capuchinho, sempre acompanhado do irritadiço Frei Fernando. Eram hóspedes dos meus pais. Um primeiro quarto da casa onde morávamos ficava reservado para os dois missionários. Sua caminhada começava pela madrugada. Quem o desejasse acompanhar teria que pular fora da rede ou da cama por volta das quatro horas da manhã. A escuridão ainda era total. Ao surgir os primeiros raios de sol, o suor já contemplava parte dos caminhantes, mesmo nos tempos de clima frio.

Em uma dessas missões pulei cedo da cama, vesti-me apressado e ainda limpando os olhos me joguei na rua. Corri para alcançar a procissão que já se derramava ligeira pelas ruas empoeiradas da Vila. Quando o dia clareou, pude olhar para as minhas calças curtas. Os bolsos estavam com seu forro à mostra. Eu vestira as calças pelo avesso. Como todos só prestavam atenção ao santo homem, fui recuando, recuando, até chegar, de costas, ao final da multidão. Aí então, parti correndo para casa onde me vesti corretamente e voltei ao cortejo.

Minha mãe cuidava pessoalmente dos seus hóspedes. Acompanhava sua alimentação e sempre reservava as melhores iguarias para a mesa dos frades. Alguém trazia uma macaxeira boa, outro, batata; e frutas as mais diversas. Eu queria participar desse manjar mas minha mãe não deixava. É pecado, dizia. O presente fora para Frei Damião. Afastava-me temeroso de ofender aos céus comendo das frutas trazidas para o frade. Umas beatas cuidavam de ajudar minha mãe. Forravam as camas, varriam o quarto e esperavam ganhar as bênçãos divinas com a proximidade daquele homem que diziam santo. Pela manhã, a cama de Frei Damião amanhecia com os lençóis intactos. Nenhum amasso que indicasse que dormira alguém naquele catre.

- É um milagre, dizia uma beata.

-O homem dorme a noite toda e não amassa os lençóis! acrescentava outra.

Que milagre que nada! O pobre homem, cansado das suas caminhadas diurnas e noturnas, já começava a entortar a coluna cervical e a adquirir aquele formato curvilíneo que encostava o seu queixo ao peito. Por recomendação médica, dormia no chão. Eis o mistério.

As missões de frei Damião eram uma festa. De toda parte vinha gente para ouvir o sermão noturno do capuchinho. A realização do crisma atraía multidões. Confessar-se com frei Damião era uma benção. Muitos faziam promessas a pagar com o ato de contrição perante o frei. Em uma dessas realizações missionárias meu pai foi padrinho de mais de cem crianças e adolescentes. Uma multidão passou a chamá-lo “padim” Arlindo. Frei Damião nunca perdeu o sotaque italiano. Pouco se entendia da sua fala, mas bastava o som da sua voz para alimentar a fé daquele povo. E os presentes chegavam: sacas de feijão, de arroz, de laranja, garajás de rapadura, cachos de banana, farinha de mandioca e sacos de batata doce. Quando o frade ia embora, um caminhão seguia atrás com os presentes, diretamente para o co nvento São Félix de Cantalice, no Recife, onde um dia seria sepultado.

As lembranças de Frei Damião são da infância. Na idade adulta avistei-o em missões em Bananeiras e Solânea. Quando candidato a deputado em 1974, regressando de Itaporanga, à noite, parei em Catingueira para ouvir frei Damião. Entrei pela porta de trás da Igreja e encontrei frei Fernando. Puxei conversa:
- Frei Damião tá cansadinho não está, frei Fernando?

- Cansadinho tou eu, dirigindo esse carrão por essas estradas cheias de lama... (A rodovia estava em construção pelo governo Ernani Satyro)

Continuava o mesmo frei Fernando que conheci quando eu era uma criança pequena lá em Borborema. Havia rejeição de alguns padres ao estilo de frei Damião. Ele passou, então, a só visitar as paróquias quando convidado pelos vigários locais. No brejo, voltou muitas vezes a Dona Inês, hóspede de Chico Adolfo, pai do monsenhor Nicodemus que, depois, vigário de Guarabira, fez de frei Damião seu missionário mais frequente. Guarabira criou uma afinidade com o capuchinho e lhe concede verdadeira devoção. O nome de frei Damião serve de patrono a todo tipo de comércio. A cidade construiu um memorial em sua homenagem e uma das maiores estátuas do Brasil. Todos os anos, o brejo é mobilizado para a romaria de frei Damião. Seus restos mortais, porém, permanecem no convento do Recife, no interior da Igreja de Nossa Senhora das Graças. Dizem que, ainda hoje, é frei Damião que mantém a casa.( Cap.6 do meu livro ERA O QUE TINHA A DIZER, em edição)

Ramalho Leite 

Juro que é verdade

Adoro advogar. Mesmo que essa profissão não fosse tão gratificante, ainda assim valeria e pena pelas histórias verdadeiras que alguns podem pensar impossíveis. Como por exemplo o caso de Juiz de Direito da cidade de Oliveira (MG), que condenou o INSS a emitir uma certidão negativa. Os procuradores do INSS argumentaram que somente um Juiz Federal teria competência para dar essa decisão. Sabem o que foi que o Juiz fez? Decretou a prisão dos Procuradores e ainda os qualificou de “insensata associação criminosa”, membros de “quadrilha de bando” e “répteis, já definidos como seus semelhantes que mostram o que são ainda na casca do ovo, antes da eclosão”. Não satisfeito definiu a atuação dos Procuradores como “atitude cretina dos filhos de pavão com burro” que “guardam a vaidade do primeiro e a estupidez do segundo”.

Ou então o caso do Advogado que propôs uma ação de separação de corpos numa Vara de Família de uma pequena comarca de Minas Gerais e lá no meio da petição disse “-Que no dia 29 de março, o Requerido chegou em seu lar, completamente embriagado, expulsou para fora de casa os filhos e tentou manter relações sexuais à força com a Requerente, sua esposa. Tendo esta se negado, ele se dirigiu a sua sogra e disse para ela deixar a porta do quarto aberta porque ele iria “comer alguém de qualquer jeito”.

Tive acesso a uma certidão passada por Oficial de Justiça que expressamente declarou: “Deixei de fazer a citação tendo em vista que o réu está em lua de mel e me respondeu por telefone que nos próximos dias não está nem aí”.

Meu amigo Carlinhos me contou que estagiava num grande escritório de advocacia em outro Estado e saíra para almoçar com o Advogado Sênior da banca. À tarde iriam a uma audiência, mas ao voltarem para o escritório, encontraram no birô do chefe um bilhete de outro Advogado, que dizia: “Dr. Fulano, lascou tudo. O Sr. Beltrano que seria nossa única testemunha na audiência de logo mais não vai poder testemunhar, tendo em vista que o mesmo é pastor e não pode mentir”.

E me digam mesmo se essa história não faria inveja a Gabriel Garcia Marques. É que um cidadão deixou a esposa e foi viver com a amante, mas voltou depois para a esposa e veio a falecer. A esposa providenciou velório e sepultamento impedindo o acesso da amante. Pois acreditem, caros leitores, a amante entrou com uma ação pedindo a exumação do corpo para realizar novo velório e outro enterro.

Marcos Pires
Do Blog do Tião 

Frase



"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes."

Mia Couto
No livro "Vozes Anoitecidas"

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Quem sabe um dia

Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Mário Quintana
Botas...as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.

Machado de Assis

Frase

Casamento - é muito difícil conhecer uma pessoa com quem se vive muito próximo, porque há um fenómeno de desfocagem, porque se está tão próximo não há uma perspectiva para conhecer, só para amar.

Gosto de caminhar pelas trilhas do campo, pelas plantações de arroz ladeadas por gramíneas selvagens, pisando conscientemente o solo maravilhoso. Nessas horas, a existência se torna uma realidade miraculosa e misteriosa. Normalmente, as pessoas consideram um milagre caminhar sobre a água ou no ar. Mas eu acho que o verdadeiro milagre é caminhar no chão. Todos os dias nos envolvemos em milagres que sequer reconhecemos: o céu azul, as nuvens brancas, as folhas verdes, os olhos negros e curiosos de uma criança - nossos próprios olhos. Tudo é um milagre.

Thich Nhat Hanh

A República da Estrela


No início do século XX uma Revolução aconteceu no sertão brasileiro e muito pouca gente sabe pelo Brasil. Acredito que entre os historiadores, nem 5% sequer ouviu falar ou leu algum artigo sobre um exemplo de luta, resistência e pululância nordestina, a proclamação da República da Estrela. Esta República abrangia os importantes municipios de Boa Ventura, então com 7 mil habitantes e Curral Velho, com mil e quinhentos, no Vale do Piancó, alto sertão da Paraíba. Esses dois municípios, comandados pela mão forte do Coronel Zuza Lacerda, declararam independência do Estado da Paraíba e consequentemente da nação brasileira.

Depois de perder a eleição no município de Misericórdia, atual Itaporanga, Zuza Lacerda resolve separar Boa Ventura e Curral Velho, então pertencentes a Misericórdia. O seu governo gozava de organização invejável a muitas nações da Oceania, como Tokelau, Tuvalua e Kiribati. Possuía Ministério de Relações Exteriores, cujo secretário era o Major Sula; e seus dois filhos eram secretários de Guerra e da Fazenda. O mais audacioso projeto era o do Ministério da Marinha, que servia para fazer a importante travessia do Rio Piancó, que pra facilitar o trabalho dos marinheiros, fica seco durante 6 meses do ano.
                                                        Curral Velho (hoje, mesma coisa)
 
A República durou três meses e Zuza Lacerda abandonou a cidade quando as tropas estaduais ameaçaram acabar com o sonho de um povo. Zuza Lacerda se mandou pro Ceará e depois foi a julgamento na cidade de Pombal/PB. Terminara a República da Estrela. Anos depois, Boa Ventura se emanciparia de Misericórdia e hoje em dia, Curral Velho também é emancipada.

Boa Ventura é a cidade da família do meu pai e Curral Velho, da família da minha mãe, embora ninguém estivesse envolvido em tal episódio, creio eu, acho interessante que esse evento tenha ocorrido lá, tão inusitado e lúdico. Na verdade, minha narrativa não oferece uma abordagem histórica muito ampla porque advém da História Oral e de um livro de André Raboni que li e devolvi (devia ter roubado!) que poderia me ser útil para dar uma abordagem mais técnica. Mas, vou fazer melhor, vou deixá-los com o link para a História da República da Estrela contada em versos de literatura de cordel, escrito por Marcondi Aurélio (assim mesmo, meu nome é Odomiro). Vale muito a pena ler esse cordel, possa crer! Também tem um trabalho profissional do historiador Lourival Inácio no site da Prefeitura de Itaporanga. 
 

Historiador Lourival Inácio: 


Maria da Penha: un caso de litigio internacional

terça-feira, 8 de agosto de 2017


A Intuição é mais forte que a Razão

Devemos sempre dominar a nossa impressão perante o que é presente e intuitivo. Tal impressão, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, é incomparavelmente mais forte; não devido à sua matéria e ao seu conteúdo, amiúde bastante limitados, mas à sua forma, ou seja, à sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus propósitos. Pois o que é presente e intuitivo, enquanto facilmente apreensível pelo olhar, faz efeito sempre de um só golpe e com todo o seu vigor. 

Ao contrário, pensamentos e razões requerem tempo e tranquilidade para serem meditados parte por parte, logo, não se pode tê-los a todo o momento e integralmente diante de nós. Em virtude disso, deve-se notar que a visão de uma coisa agradável, à qual renunciamos pela ponderação, ainda nos atrai. Do mesmo modo, somos feridos por um juízo cuja inteira incompetência conhecemos; somos irritados por uma ofensa de caráter reconhecidamente desprezível; e, do mesmo modo, dez razões contra a existência de um perigo caem por terra perante a falsa aparência da sua presença real, e assim por diante.

Em tudo se faz valer a irracionalidade originária do nosso ser. 
 

Novo Ano, mas não nova vida. Quem pensa em ser mais crédulo, se tem medo de ser enganado? Se o mundo é de enganos, por que não deixar que nos façam pirraças e troças? Ninguém quer ser parvo, e é pior: porque para não ser enganado, desonra-se como pessoa de lisura e sinceridade. Há mais covardes em ser iludidos, do que em ir para a guerra. Quando os simples são afinal os mais poderosos e quem cede, ganha.


Frase

Mesmo desacreditado e ignorado por todos, não posso desistir, pois para mim, vencer é nunca desistir.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017