Oficialmente, começaram os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
sábado, 6 de agosto de 2016
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Revista Bula
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Revista Bula
Desencontros 1
Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
( o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
Mia Couto
Jardim de sojas
Você é a favor da devastação da biodiversidade de um ambiente para a produção de monoculturas?
Monocultura é a produção ou cultura agrícola de apenas um único tipo
de produto agrícola (ex: soja – está associada aos latifúndios). A
substituição da cobertura vegetal original, geralmente com várias
espécies de plantas, por uma única cultura, é uma prática danosa ao solo
e aos animais. Por outro lado, aumenta-se intensamente as pragas
trazendo a necessidade de inseticidas e aplicação de adubos.
Que tal pegar um belo jardim de flores e troca-las por soja?
Lavandas, jasmins, rosas e toda uma variedade de flores e transformar
esse jardim em uma plantação de soja. Você faria isso?
Talvez você já esteja fazendo… com os seus filhos. O processo de
educação atual é uma monocultura do pensamento. Danosa à criatividade e
fantasia, além de ser passível de enfraquecer e até anular as
capacidades, talentos e aptidões…
Cada criança é uma individualidade única e singular, pronta para
florescer, mas nos esforçamos para transforma-los em soja, num padrão… e
mesmo estar dentro do padrão não é fácil, isso pode trazer transtornos,
muito estresse e insatisfação, o que é muito comum. E fazendo uma
analogia à monocultura, seria o enfraquecimento do solo (neste caso, da
individualidade) e poderia trazer a necessidade de inseticidas e adubos
(drogas lícitas e ilícitas).
Questione-se… o que vc quer para as suas sojas… ops, para seus filhos?
Leonardo Maia
Advogado escreve receita de pamonha para provar que juiz não lê os autos
Uma notícia publicada no portal JusBrasil
ganhou grande repercussão nas redes sociais com muitos
compartilhamentos e comentários a respeito do trabalho da Justiça
brasileira. Só na publicação inicial foram mais de 150 comentários
ironizando, criticando e tentando justificar o ato do advogado que
escreveu uma receita de pamonha na petição para provar que juiz não lê
os autos.
“Nossas petições nunca são lidas com a atenção
necessária. A maior prova disso será demonstrada agora, pois se somos
tratados como pamonhas, nada mais justo do que trazer aos autos a
receita desta tão famosa iguaria. Rale as espigas ou corte-as rente ao
sabugo e passe no liquidificador”, diz um trecho da petição do advogado
que não quis se identificar.
Leia a íntegra do que foi escrito na petição:
“Senhores julgadores, espero que entendam o que
faço nestas pequenas linhas, e que não seja punido por tal ato de
rebeldia, mas há tempos os advogados vem sendo desrespeitados pelos
magistrados, que sequer se dão ao trabalho de analisar os pleitos que
apresentamos. Nossas petições nunca são lidas com a atenção necessária. A
maior prova disso, será demonstrada agora, pois se somos tradados como
pamonhas, nada mais justo do que trazer aos autos a receita desta tão
famosa iguaria. Rale as espigas ou corte-as rente ao sabugo e passe no
liquidificador, juntamente com a água, acrescente o coco, o açúcar e
mexa bem, coloque a massa na palha de milho e amarre bem, em uma panela
grande ferva bem a água, e vá colocando as pamonhas uma a uma após a
fervura completa da água, Importante a água deve estar realmente
fervendo para receber as pamonhas, caso contrário elas vão se desfazer.
Cozinhe por mais ou menos 40 minutos, retirando as pamonhas com o
auxílio de uma escumadeira.”
Imagem:
Fonte aqui
Gato malandro
Um gato estava caçando um rato. Depois de muita correria, o rato esconde-se em sua toca e escuta um latido:
- Au! Au! Au!
Pensando que estava salvo, o rato sai da toca e o gato o abocanha!
Antes de ser engolido, o rato pergunta pro gato:
- Mas e o cachorro que estava aqui?
E o gato:
- Pois é, meu filho... Hoje em dia, quem não fala dois idiomas não sobrevive!
- Au! Au! Au!
Pensando que estava salvo, o rato sai da toca e o gato o abocanha!
Antes de ser engolido, o rato pergunta pro gato:
- Mas e o cachorro que estava aqui?
E o gato:
- Pois é, meu filho... Hoje em dia, quem não fala dois idiomas não sobrevive!
Esquece o futuro
O escritor, filósofo e humanista francês, Michel Eyquem de Montaigne,
disse que quando queria lidar com o medo da morte recorria a Sêneca.
Não por acaso. Ninguém se deteve de forma tão profunda e brilhante sobre
a maior das aflições humanas: o medo da morte. Sêneca, numa carta a um
discípulo, escreveu uma frase célebre: “E por mais que te espantes,
aprender a viver não é mais que aprender a morrer”. No poema “Esquece o
futuro”, Montaigne se vale desse medo da morte para vivenciar o presente
com urgência, beleza e muita vontade.
Neste vídeo a singular interpretação do ator Ivan Lima dá voz ao poema de Montaigne. Vale muito assistir.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Um idoso na fila do Detran
"O senhor aqui é idoso", gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão
na porta do Detran da Avenida Presidente Vargas, apontando com o dedo o tal
"senhor". Como ninguém protestasse, o policial abriu o caminho para que o
velhinho enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira.
Olhei em volta e procurei com os olhos 0 velhinho, mas nada. De repente, percebi que o "idoso" que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.
Até hoje não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos "entra"; dos 50, quando, deprimido, salte que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na "terceira idade". Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de "idoso", ainda mais numa fila do Detran.
Na hora, tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo foi de lhe dizer: "idoso é o senhor seu pai. O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu pra ver minha identidade? E 0 guarda paspalhão, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? Será que era tão evidente assim? Como além de idoso eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: "esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!" Mas que nada, nem um pio.
O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima — do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: "Isso é uma sacanagem comigo", me disse, "eu não mereço." Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: "Mas ninguém lhe dá isso." Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me "dar" um pouco menos.
Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: "Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas." Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: "O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?"
— Não, sou gestante — tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: "não tenho mais, tenho só 65 anos."
O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. "Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15", já ouvi essa discussão.
Enquanto espero ser chamado, vou tentando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Ai, se não me falha a memória — e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade —, me lembro que Fernando Henrique, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, entre companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais em fila do Detran, ou estão quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Janio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou com outro — de ano, meses ou dias —, e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.
Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? "No Detran", diz uma voz. Ah, sim. "E o atendimento?" Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar em fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade.
Olhei em volta e procurei com os olhos 0 velhinho, mas nada. De repente, percebi que o "idoso" que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.
Até hoje não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos "entra"; dos 50, quando, deprimido, salte que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na "terceira idade". Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de "idoso", ainda mais numa fila do Detran.
Na hora, tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo foi de lhe dizer: "idoso é o senhor seu pai. O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu pra ver minha identidade? E 0 guarda paspalhão, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? Será que era tão evidente assim? Como além de idoso eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: "esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!" Mas que nada, nem um pio.
O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima — do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: "Isso é uma sacanagem comigo", me disse, "eu não mereço." Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: "Mas ninguém lhe dá isso." Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me "dar" um pouco menos.
Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: "Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas." Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: "O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?"
— Não, sou gestante — tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: "não tenho mais, tenho só 65 anos."
O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. "Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15", já ouvi essa discussão.
Enquanto espero ser chamado, vou tentando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Ai, se não me falha a memória — e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade —, me lembro que Fernando Henrique, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, entre companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais em fila do Detran, ou estão quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Janio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou com outro — de ano, meses ou dias —, e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.
Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? "No Detran", diz uma voz. Ah, sim. "E o atendimento?" Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar em fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade.
Zuenir Carlos Ventura
Republicado no blog a pedido
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
A República dos Bugres
Sala da Tocha. Palácio dos Vice-Reis. Terceiro do Paço, Rio de Janeiro.
Final da manhã do dia 14 de janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor
Jesus Cristo de 1808.
Final da manhã do dia 14 de janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor
Jesus Cristo de 1808.
O negro Anacleto e o filho, Jacinto Venâncio, escravos e serviçais do palácio dos Vice-Reis, raspam e esfregam o piso caveirado da Sala da Tocha. Uma crosta endurecida de cera derretida grudou-se às tábuas do soalhado. Pendurado sob a abóbada da sala, balança enorme castiçal de ferro fundido, onde crepitaram, até ao alvorecer do dia, lumes de grossíssimos círios, que alumiaram reunião do Conselho, sob a regência do Conde dos Arcos de Val de Vez, Dom Marcos de Noronha e Brito, Vice-Rei do Brasil.
— Fio, tuma cuidado módi num ranhá os taco da sala cum as pátula, sinão vai sobrá chibatada pra nóis — murmurou o escravo, voz abafada.
O negrinho Jacinto Venâncio, de quatro sobre o piso, arregalou os bugalhos e espirrou um terno de vezes.
— Valha-me São Benedito! — disse baixinho, e espirrou mais um par de vezes.
— Quíqui foi isso, fio? Porum acauso ranhou os taco? perguntou Anacleto, aos sussurros, morto de medo.
— Não, pai. É esse cheiro de merda que o vento trás do largo do Paço.
Anacleto fungou o ar, por duas vezes:
— Num sinto nada: tô custumado. Passei temporão, cúmu trigue, cargando toné de cocô de branco nas cabeça, as hora dos ângelu, aos finá de todo santo dia, fio, mode dispejá nus mar, nas praia, mais das vez aí mermo di frênti du chafariz du Terrêro du Carmo. Têmpis bão quêle, fio, quadris de fartúris. Os nego, quele têmpis, intê cumia carne de bacurim nas janta, amisturada cum farinha, módi dá sustança nus lombo, pras lide dus eito...
— Que tempo bom que nada, pai. Isso lá tinha jeito de vida boa? — reagiu o negrinho.
Anacleto riu baixinho, sem interromper a esfregadura do assoalho.
— O minínu Jacinto num sábi quiquié fedentina... Os negrero qui truxe seo paí pru Brasí só fedeava a bosta de nego! Os pombeiro marra os nego deitádis nos purão dus navio, lado a lado, módi cabê mais nego, e a cravaria toda é brigádis a cumê e a cagá no mermo lugá qui tá marrado. Vassuncê magina, ingora, u quiquié cheirá bosta di nego pur mais di meis siguido, as mão currentada, sem nem pudê limpá us rabo, fio! Isso cá é o paraís, Jacinto, o Paço é o céu!
— E por que vocês não reagiam? Por que não se rebelavam?
— Purcausadiquê us brâncu é mandiguero, fio. Os mercadô de nego, lá nas África, ricebe órdis dus purtuga módi num botá ajunte nego de tribo iguá. Antonce os mercadô pombeiro marra um nego malé ajunte cum um nego gegê, um nego nagô afica marrado ajunte cum um nego bantu, um nego minas ajunte cum um nego cabinda, e ancim pur adiânti... As tribo, fio, fala caduma de módi adeferênti, antonces... Os nego num si intendia pra nada. Vassuncê, purum acauso, já sube de boi qui lertou prusotro qui tudo qui é boi vai morrê iguá? Não, fio, purque si boi si intendesse eles num ia tudo pro matadô ajunte e filiz, sem arreclamá, num é os causo? Cum os nego si dava tarquá: é impossive revorte cum quem num tinha sabeação do qui tava cuntecendo... Era isso, fio — respondeu Anacleto, voz sussurrada, sem interromper o serviço.
— E a viagem dos negreiros? E a chegada ao Brasil?
— Apois, fio. Os nego qui desvive nas viage, os branco ajoga nas água, prus tiburão cumê. Ouêlis qui chega vivo é trucado pur artíguis de cumê ou é avendido, ali mermo, nus porto de mercação, prus dono de prantação, prus creador de gado e asoutros animá de comeação, prus servícis de sesmaria, alambicage, prus agrádis e servícis nas casa grande, asinfim: prus trabaio qui purtuga e branco num gosta de fazê... Num ranha os taco, Jacinto! Tem dó dos lombo do teu véio! arrematou, repreendendo o filho.
— É raiva, pai, me desculpe. Essas histórias da nossa raça, de gente que não reage, me amofina. Se Ganga-Zumba, Amaro e Zumbi se revoltaram, por causa de que a semente não vingou?
— Apois, fio. Num si mufine qui tudo avém ao seo têmpis. Us causo é as quadris das vida qui nóis apareceia nos múndi: seo pai já se falfô, de sol nascê a sol murrê, nus eito, nas prantação de cana e de café, pur mais de vínti ano. Oje tô cá nos Paço, nus servícis qui siá moça fazeia inté cum os pé nas costa... Vassuncê, si nossossinhô jesuscristo assi apermiti, um dia num vai mais tê essa vídis, fio. Vassuncê é brasileiris, sábi acontá e falá módi os purtuga e os mazombo, tem padim branco e, alouvado seje frei ftodovaio, quinté a línguis de nossossinhô ele tinsina!
— Se aquieta, pai. Tem baticum de tropa se aproximando da sala... — alertou o negrinho.
— Apois, fio — retrucou Anacleto, e silenciou.
A guarda de soldados do palácio, que esteve de serviço durante a noite, está sendo rendida. A vozearia vai alta, ressoam as batidas dos butes nas pedras do pátio; ferros repenicam; há um bulício na tropa. Um sargento abaçanado berra comandos, ordens-unidas, destampatórios. A algaraviada reduz, à medida que se afastam, marchando para o alojamento. A Sala da Tocha está no remanso, novamente.
— E tinha tanto castigo como hoje, pai? — retomou a conversa Jacinto.
— Vige, si! Os nego qui trabaiava nos eito panhava tudo santo dia, fio! mermo si assuntando dereito: os branco diz qui nego aprecisa de apanho, módi afuncioná mió. Si os nego num fazeiava tripulia, .tumava, assi mermo, meia dúzis de achibatada nus lombo, antes dus sirvíci acumeçá, módi quecê os musclo, é o qui os branco diz. Êlis chama isso di quecimento; diz qui é pros nego num si estropiá nus eito, num apegá mulésti e trabaiá cum ráivis, módi dá mais rendimêntis... Ingora, o acuitado do nego qui arguma relia fazeiava, vige! nem nossossinhô arrimidiava... O nego afaltoso arricebia nos lombo, amais do quecimento, de duas a cinco dúzis de achibatada, as vez inté mais, as vez inté murrê, marrado num pelourim, mor das vez sem sabeação dos purcausadiquê qui murreu!
— Então, nada mudou até hoje! E se matava negro inocente, pai?
— Eh-eh, fio. Seo pai apresenciô a disfilicidade do nego Altino, qui afoi turrádis em fôrnis di olaria di cosê telhame! O nego Altino foi ajugado, marrado com córdis e correnta, vivinho, no abraseiro de fogo alto de cosê adobe, adispois do capitão tê aquebrado os dênti dele cum turquês, umporum, sem apiedádi. 0 nego Altino aberrava atanto di dô qui seo pai, inté oje, corda, sonha, iscuita os urro, qui inté acho os guincho dele tá carcerado na mia cabeça, fio, e pelos ajeite, vai acumigo pras cova...
— E o que tinha feito esse infeliz, pai?
— Hum-hum, fio. O coroné afalô qui o nego Altino buliu cum a siá fia dele, donzel e vige prendádis, qui tava aprometida e se apreparando pra noivá cum nossossinhô jisuscristo, em badia de irmãs. Causo verdadero, fio, era os contrá: a siá fia do coroné é qui atentava cum o acuitado do nego Altino, e ele é qui afugia dela módi o coisarruim do nossossinhô... 0 nego Altino era bonito, com os óio craro, furçudo qui só ele, e vivia de cobrir as nega, mor parte do têmpis, módi arreproduzi fios acume ele, pra sê vendido adispois de crescidim, pur órdis dos branco... Acume Altino num quis furnicá cum a siá fia do coroné, a marvada se avingô afalando pru pai qui ele tinha atentado furnicá cum ela as força... Desverdade, fio. O nego Altino não fazeava má nem prum bacurim, e nem dava conta do trabaio dele, qui o qui num fartava era nega prêli cubri... A siá fia do coroné é qui era uma branca fea qui só a nicissidade, tinha bigódis e era banhuda acúmu uma anta prênhis...
Jacinto alertou Anacleto para nova movimentação de tropa no pátio. Havia notícia, vozeada por um polícia do terreiro do Paço, de brigue de guerra da esquadra portuguesa entrado na barra, com correio urgentíssimo da Corte; o comandante já estava a desembarcar no cais. O negrinho largou a espátula e o esfregão, olhou para os lados, nâo viu ninguém; colou o indicador esticado sobre os lábios fechados, pedindo silêncio ao pai. Encaminhou-se pé ante pé até uma janela que dava para o pátio interno, e de lá observou os exercícios militares de uma tropa de pretos forros, conhecida como terço dos Henriques. Má figura fazia aquele pelotão de pretos molambentos, todos de espinhaço curvo, desaprumados para frente uns, para trás outros, beiçolas caídas, malajambrados dentro de fardões costurados para reinóis, gorros tortos e largos, dólmãs surrados, butes cambaios, marchadura trôpega e descadenciada, mosquetes jogados aos ombros como se fossem vassouras.
— Marchem, cavalgaduras, marchem! — gritava o sargento reinol, espada à mão.
— Mais pareceis uma tropa de pangarés pretos molestados por moscas ao lombo! Sois uma malta de imbecis inservíveis! Pudesse eu contar com antas para domesticar, menores sacrifícios faria! Vou trocar esta espada por um rebenque, porque da linguagem dele vós entendeis melhor, hein? Marchem feito gente, seus infelizes! Não precisais de instrutor militar: um almocreve cá teria mais serventia e valimento! Acerta o passo com essas tuas patas de mula manca, ó Benedito! Olha que te amarro ao tronco e te mato as saudades de vergastadas à bunda, hein? Ai, Jesus! é com essa mulada que a pobre São Sebastião vai lutar contra os ingleses? Com semelhante milícia esta desgraçada província está desprotegida até dos bugres frecheiros de Nictheroy! — esgoelava o sargento, carótida aos pulos, pescoço rubro de galo de rinha.
Jacinto Venâncio a tudo assistiu, ruminando ódios à janela. Os remoques do sargento arrogante bateram-lhe n'alma como vergastadas. O negro Benedito, que mal se apruma em pé, e vai pelo pátio a marchar com os botins rasgados nos joanetes, já anda pelos quarenta, a despedir-se da vida. É tio de Jacinto, irmão da escrava Venância, mãe do moleque. Benedito trabalhou no eito dos dez aos trinta e oito anos de idade, dezoito horas por dia, fizesse chuva ou sol; foi alforriado quando adoeceu. Não por piedade do dono, mas em razão do elevado custo de manter um escravo estropiado. Benedito não procriou: teve os testículos esmigalhados por um capitão-do-mato, quando fugiu de um engenho de cana, em Campos, e foi recapturado. Sempre tratou Jacinto Venâncio como se seu filho fosse.
— Vassuncê vai miorá essa terra, Jacinto Venâncio! comentou certa feita.
— Vassuncê é brasileiro, e vai sabê ajudá a apurá a raça, e vai istudá, purcausadiquê já chegô agentado ao múndis, já sabe afalá módi us branco... Teo pai, mais tua mãe e mais eu, só tamo aqui módi acumpri as nossa sina e amostrá prus novo a desjustiça qui é o cativero, e qui nego num é bicho, e qui aprecisa de liberdádis, cúmu quarqué hômi! E vassuncê vai acuntinuá Zumbi, Ganga-Zumba e tudo os nego de fíbris e sonhadô cum os bem da raça. É aprecise transformá essa terra de papagais e de purtuga reimôsu em nação de gente nacioná! E isso num é adifice, fio. Nos Caríbis já conteceu revórti de iscrávis e nas França, nus remótis, tantas afazeu o úrtimo rei e os maiorá de lá, qui o povo, branco acumo êli, acurtou fóris os gragumil dêli, e os da famia dêli tumém!
Um tenente reinol, de robusta bigodeira, careca de ovo, e acentuada proeminência abdominal a escapulir por cima do cinturão, está parado sob a umbreira da porta da sala da tocha.
— Tu, aí, ó negrinho biltre, anda cá! — gritou, dedo balofo apontado para Jacinto Venâncio. — Leva esta jarra de vinho, agora mesmo, para a sala do trono! Avia-te!
Jacinto não se fez de rogado: nariz empinado, apanhou a jarra, cheia de vinho, das mãos do tenente. Este, ao reparar Anacleto raspando o chão, de quatro, traseiro voltado para a porta, não resistiu e aplicou-lhe vigoroso pontapé nos fundilhos: "Levanta esse rabo, negro sujo! Não estás a perceber um oficial português no recinto?" Ato contínuo, puxou o jaquetão do uniforme por debaixo do cinturão e afastou-se da sala, ruidosamente, batendo o solado das sapatorras nas tábuas do piso. O negrinho pousou a jarra de vinho no soalho e foi ajudar o pai, caído de bruços, esparramado sobre a sujeira das velas.
— Num foi nada, fio, dexa istá qui num foi nada. Vá acumpri cum as órdis do nhonhô oficiá, vá, fio!
Jacinto Venâncio caminhou em direção à jarra de vinho pousada sobre o piso, olhou para os lados, tirou o pinto para fora e urinou dentro do vasilhame, sob o olhar apavorado de Anacleto.
Ruy Tapioca
Crítica da razão pura
Ouvi primeiro o ruído de cascos pisando a grama, mas continuei
deitado de bruços na esteira que havia estendido ao lado da
barraca. Senti nitidamente o cheiro acre, muito próximo. Virei-me
devagar, abri os olhos. O cavalo erguia-se interminável à minha
frente. Em cima dele havia uma espingarda apontada para mim e
atrás da espingarda um velhinho de chapéu de palha, que disse logo
o seguinte:
— Filhos de uma puta.
Pois não — tentei eu, ainda entorpecido pela bebida do almoço.O velho encaminhou o cavalo até o fogão, abaixou-se na sela e inspecionou o que restava na lenha.
— Filhos de uma puta.
Os moirões — pensei, pondo-me de pé. E andando de costas, sem tirar os olhos do velho, fui até a entrada da barraca e chamei pelo Dr. Fontes.
— Fale, querida — disse ele lá de dentro.
— Depressa, doutor — pedi.
— Filhos de uma puta — repetiu o velho emputecido, agora examinando a cerca destruída.
— São os moirões — expliquei para o Dr. Fontes, que saía da barraca com o óculos torto na cara amarrotada, os cabelos em desordem.
— Calma — ponderou Dr. Fontes.
— Filhos de uma puta — insistiu o velho de pele vermelha curtida, ossudo.
Cainca apareceu fora da barraca, nu, com o calção na mão:
— Mas que porra é essa?
— Chega pra lá — ameaçou o velho lá de cima do cavalo.
Cainca enfiou o calção.
— Bem — disse eu — se é por causa dos moirões.
— E o senhor tem dúvida? Olha lá o que vocês fizeram com a cerca. Será que algum filho da puta ainda tem alguma dúvida?
— Filho da puta, não senhor — disse Cainca.
— Filho da puta, sim — confirmou o velho brandindo a espingarda.
— Filho da puta é a buceta da mãe.
O velho apontou a espingarda.
— Atira não — gritei, segurando Cainca pelas costas.
— Nada de violência — propôs o Dr. Fontes, colocando-se a meio caminho entre o velho e Cainca. — O senhor desculpe.
— Desculpar uma merda — intrometeu-se Cainca
— Cala essa boca podre, animal.
— Mas, doutor.
— Cala a boca.
— Cala a boca — disse eu também.
— Mas ele tá chamando a gente de filho da puta.
— Isso agora é secundário — disse o Dr. Fontes, tecnicamente.
— Pra mim não é.
— Sua mãe é uma santa — afiançou o Dr. Fontes. — Agora, cale-se.
Cainca acalmou-se. Soltei-o. Dr. Fontes dirigiu-se ao velho:
— Abaixe a arma, por favor.
—O quê?
— A espingarda, meu bravo. Olha — Dr. Fontes ergueu a mão forense — quanto aos moirões.
— Não quero conversa — cortou o velho.
— E o que é que o senhor quer então? — Cainca quis saber.
— Muita calma. — Dr. Fontes repetiu o mesmo gesto amistoso. — Eu quero dizer que retiramos os moirões, mas não vamos dar prejuízo a ninguém. Pelo amor de Deus.
O pessoal aqui é gente boa — observei eu modestamente.
— Gente boa? — O velho fez uma careta em cima do cavalo mantendo a espingarda firme na mão direita, enquanto a esquerda segurava a rédea de couro.
— O senhor está vendo — entornei. — Tudo aqui é gente boa. Viemos só dar uma pescada. E ninguém quer dar problema pra ninguém.
O velho relaxou-se um pouco, os olhos muito azuis no rosto fino e curtido de sol. Estávamos os três à sua frente, a cinco passos do cavalo acaboclado que assistia tudo em omisso silêncio.
— Tá certo — Cainca procurou ajudar, esforçando-se para imprimir à voz um tom sordidamente ameno e fraudulentamente conciliador. Tiramos os moiróes. A gente errou, mas a gente paga.
Dr. Fontes meteu rápido a mão no bolso do macacão:
— É só o senhor falar quanto é, nós pagamos, pedimos desculpa se o senhor quiser — e pronto.
— Pagar? — rosnou o velho. — Pagar o quê?
— Os moirões, é evidente.
— Os moirões. Eu quero eles de volta.
Lá estavam os moirões, ou melhor, o resto dos moirões, metidos no fogáo cavado na terra e de onde ainda saía uma pífia fumaça. A dez metros da Rural, passava a cerca dividindo o campo imenso e montanhoso que se estendia verde pelo horizonte a fora, sem uma única árvore. Nada.
— Por favor — tornou o Dr. Fontes. — É só o senhor ter a bondade de dizer o valor dos moirões, nós pagamos.
— Quero os paus onde eles estavam — retrucou o velho. — Quero a cerca no mesmo lugar.
Mesmo assim, Dr. Fontes tirou um maço de notas da carteira. Mas não conseguiu sensibilizar o velho homem.
— Não quero saber de dinheiro — disse ele. — E só dar o dinheiro e está tudo resolvido? Invadir o terreno dos outros, arrebentar cerca, é?
— Nós estamos propondo um negócio correto — argumentou o Dr. Fontes. — Estamos propondo uma indenização. E o mesmo que refazer a cerca. E a gente paga até a mais, por causa do aborrecimento.
O velho encostou o cano da arma no pescoço imóvel do cavalo e ficou avaliando o Dr. Fontes com os seus enrugados olhos azuis.
— Certo? É só o senhor falar quanto é. — Dr. Fontes animou-se, exibindo a dinheirama aberta nas mãos.
— Quero a cerca como estava — redargüiu o velho — do mesmo jeito, no mesmo lugar.
— Puta que os bunda — disse Cainca.
— Assim é pior — observei.
— Porra, mas não tem jeito de conversar com ele.
— Deixe ficar — pedi, e depois me dirigi ao velho: — olha, o Dr. Fontes é advogado. Ele entende dessas coisas.
— Adevogado? corrigiu o velho, medindo o Dr. Fontes, cuja elegância de bota e macacão desbotado não endossava sua jurídica condição.
— Advogado — entusiasmei-me e dos melhores, O que ele está propondo é o que está na lei. Se alguém dá um prejuízo tem que indenizar a outra parte.
Esperei que o velho reagisse. Ele se inclinou um pouco para a frente. Tive a impressão, sondando sua cara toda sulcada e curtida, que ele agora não estava se sentindo bem. Continuei:
— Nós destruímos sua cerca sem má intenção. Agora temos que pagar, que indenizar o senhor. Assim o assunto fica encerrado, O senhor fala é tanto, e nós pagamos.
— Quero a minha cerca — respondeu o velho. Ao mesmo tempo em que levava a mão à barriga murcha. Seu rosto estava começando a suar
— Pra mim este papo tá furado — disse Cainca; foi até a Rural e apanhou a sacola que estava dependurada na porta aberta.
— Larga isso aí — ordenou o velho
— Largar, é? — Cainca enfiou a alça no pescoço.
Um momento — pediu o Dr. Fontes, e encaminhou-se para Cainca
— Cainca, você está piorando a situação.
— Desculpe, doutor, mas estou puto da vida.
— Eu sei, rapaz. Deixe a sacola aí até a gente chegar a um acordo.
— Dr. Fontes, por favor: o senhor e o Moacir conversam com ele. Eu vou só conferir as linhas.
Cainca ajeitou a sacola, deu as costas para o velho, desceu o pequeno barranco até alcançar a margem do Paraopeba. Começava a entardecer, e os últimos raios de sol reverberavam na água encachoeirada. Olhei para o Dr. Fontes e vi que tínhamos pensado a mesma coisa.
— Bem—disse ele para o velho. — Vamos dar uma pescada enquanto o senhor decide.
— Pescada? — O velho estava tenso, com o rosto um pouco mais pálido e molhado de suor.
— Olha— explicou o Dr. Fontes apanhando o molinete encostado à barraca. — O que nós podemos fazer é isso: pagar a cerca. Não podemos fazer mais nada. Queira desculpar.
Apanhei o caixotinho de minhocuçu e segui o Dr. Fontes, que já se encaminhava para o rio.
— Pára ai— gritou o velho, com o cavalo virado em nossa direção e a espingarda à altura do ombro.
Paramos no topo do barranco.
— O senhor não vai fazer uma bobagem — disse o Dr. Fontes.
— Pare — ordenou novamente, embora já estivéssemos parados. A espingarda tremia em suas mãos e seu rosto estava incrivelmente desbotado.
— Calma — Dr. Fontes ergueu a mão. — O senhor não vai atirar na gente por causa de três pedaços de pau.
Caínca subiu o barranco e veio para o nosso lado:
— Porra, será que o velho ai querendo foder a gente?
— Fica quieto — disse eu.
—Acho que nós temos — ia dizendo o Dr. Fontes, quando vimos a espingarda cair e, logo em seguida, o velho levantar os braços espasmódicos altura do peito, desprender-se do cavalo, tombar de cabeça no chão, Ficando com um dos pés agarrado no estribo.
Cainca precipitou-se para o cavalo e segurou as rédeas. Dr. Fontes amparou o corpo do velho, que agora estava sem chapéu, enquanto eu retirava sua botina do estribo. Dr. Fontes estendeu-o no chão, O corpo do velho tremia e, dentro da bocarra, de dentes podres e poucos, a língua parecia que estava dando um nó. Quietou-se em seguida, os olhos esbugalhados.
Dr. Fontes sentiu o pulso e depois pôs o ouvido no peito do velho e procurou escutar. Ergueu-se contrariado.
— Puta merda — disse ele.
— Por Deus — disse eu. — Tem certeza?
— Puta merda, se tenho.
— Olha de novo, doutor.
— Não há mais nada para olhar — disse o Dr. Fontes.
Cainca largou as rédeas do cavalo e foi logo juntando as nossas coisas que andavam pelo chão.
— Sacanagem — disse o Dr. Fontes, dirigindo-se pata a barraca.
Enquanto Cainca recolhia as varas na beira do rio, ajudei o Dr. Fontes a desmanchar a barraca e dobrar a lona. Pusemos tudo dentro da Rural. Olhamos para o cavalo de cabeça baixa, omisso. Olhamos para o velho esparramado no chão, com os olhos fixos no céu todo azul, sem uma única nuvem. Olhamos em volta para ver se havia mais alguma coisa para recolher. Estava tudo certo.
— E agora, doutor? — disse eu.
— Agora?
— O que é que vamos fazer?
— Foda-se — disse o Dr. Fontes entrando na Rural.
— Filhos de uma puta.
Pois não — tentei eu, ainda entorpecido pela bebida do almoço.O velho encaminhou o cavalo até o fogão, abaixou-se na sela e inspecionou o que restava na lenha.
— Filhos de uma puta.
Os moirões — pensei, pondo-me de pé. E andando de costas, sem tirar os olhos do velho, fui até a entrada da barraca e chamei pelo Dr. Fontes.
— Fale, querida — disse ele lá de dentro.
— Depressa, doutor — pedi.
— Filhos de uma puta — repetiu o velho emputecido, agora examinando a cerca destruída.
— São os moirões — expliquei para o Dr. Fontes, que saía da barraca com o óculos torto na cara amarrotada, os cabelos em desordem.
— Calma — ponderou Dr. Fontes.
— Filhos de uma puta — insistiu o velho de pele vermelha curtida, ossudo.
Cainca apareceu fora da barraca, nu, com o calção na mão:
— Mas que porra é essa?
— Chega pra lá — ameaçou o velho lá de cima do cavalo.
Cainca enfiou o calção.
— Bem — disse eu — se é por causa dos moirões.
— E o senhor tem dúvida? Olha lá o que vocês fizeram com a cerca. Será que algum filho da puta ainda tem alguma dúvida?
— Filho da puta, não senhor — disse Cainca.
— Filho da puta, sim — confirmou o velho brandindo a espingarda.
— Filho da puta é a buceta da mãe.
O velho apontou a espingarda.
— Atira não — gritei, segurando Cainca pelas costas.
— Nada de violência — propôs o Dr. Fontes, colocando-se a meio caminho entre o velho e Cainca. — O senhor desculpe.
— Desculpar uma merda — intrometeu-se Cainca
— Cala essa boca podre, animal.
— Mas, doutor.
— Cala a boca.
— Cala a boca — disse eu também.
— Mas ele tá chamando a gente de filho da puta.
— Isso agora é secundário — disse o Dr. Fontes, tecnicamente.
— Pra mim não é.
— Sua mãe é uma santa — afiançou o Dr. Fontes. — Agora, cale-se.
Cainca acalmou-se. Soltei-o. Dr. Fontes dirigiu-se ao velho:
— Abaixe a arma, por favor.
—O quê?
— A espingarda, meu bravo. Olha — Dr. Fontes ergueu a mão forense — quanto aos moirões.
— Não quero conversa — cortou o velho.
— E o que é que o senhor quer então? — Cainca quis saber.
— Muita calma. — Dr. Fontes repetiu o mesmo gesto amistoso. — Eu quero dizer que retiramos os moirões, mas não vamos dar prejuízo a ninguém. Pelo amor de Deus.
O pessoal aqui é gente boa — observei eu modestamente.
— Gente boa? — O velho fez uma careta em cima do cavalo mantendo a espingarda firme na mão direita, enquanto a esquerda segurava a rédea de couro.
— O senhor está vendo — entornei. — Tudo aqui é gente boa. Viemos só dar uma pescada. E ninguém quer dar problema pra ninguém.
O velho relaxou-se um pouco, os olhos muito azuis no rosto fino e curtido de sol. Estávamos os três à sua frente, a cinco passos do cavalo acaboclado que assistia tudo em omisso silêncio.
— Tá certo — Cainca procurou ajudar, esforçando-se para imprimir à voz um tom sordidamente ameno e fraudulentamente conciliador. Tiramos os moiróes. A gente errou, mas a gente paga.
Dr. Fontes meteu rápido a mão no bolso do macacão:
— É só o senhor falar quanto é, nós pagamos, pedimos desculpa se o senhor quiser — e pronto.
— Pagar? — rosnou o velho. — Pagar o quê?
— Os moirões, é evidente.
— Os moirões. Eu quero eles de volta.
Lá estavam os moirões, ou melhor, o resto dos moirões, metidos no fogáo cavado na terra e de onde ainda saía uma pífia fumaça. A dez metros da Rural, passava a cerca dividindo o campo imenso e montanhoso que se estendia verde pelo horizonte a fora, sem uma única árvore. Nada.
— Por favor — tornou o Dr. Fontes. — É só o senhor ter a bondade de dizer o valor dos moirões, nós pagamos.
— Quero os paus onde eles estavam — retrucou o velho. — Quero a cerca no mesmo lugar.
Mesmo assim, Dr. Fontes tirou um maço de notas da carteira. Mas não conseguiu sensibilizar o velho homem.
— Não quero saber de dinheiro — disse ele. — E só dar o dinheiro e está tudo resolvido? Invadir o terreno dos outros, arrebentar cerca, é?
— Nós estamos propondo um negócio correto — argumentou o Dr. Fontes. — Estamos propondo uma indenização. E o mesmo que refazer a cerca. E a gente paga até a mais, por causa do aborrecimento.
O velho encostou o cano da arma no pescoço imóvel do cavalo e ficou avaliando o Dr. Fontes com os seus enrugados olhos azuis.
— Certo? É só o senhor falar quanto é. — Dr. Fontes animou-se, exibindo a dinheirama aberta nas mãos.
— Quero a cerca como estava — redargüiu o velho — do mesmo jeito, no mesmo lugar.
— Puta que os bunda — disse Cainca.
— Assim é pior — observei.
— Porra, mas não tem jeito de conversar com ele.
— Deixe ficar — pedi, e depois me dirigi ao velho: — olha, o Dr. Fontes é advogado. Ele entende dessas coisas.
— Adevogado? corrigiu o velho, medindo o Dr. Fontes, cuja elegância de bota e macacão desbotado não endossava sua jurídica condição.
— Advogado — entusiasmei-me e dos melhores, O que ele está propondo é o que está na lei. Se alguém dá um prejuízo tem que indenizar a outra parte.
Esperei que o velho reagisse. Ele se inclinou um pouco para a frente. Tive a impressão, sondando sua cara toda sulcada e curtida, que ele agora não estava se sentindo bem. Continuei:
— Nós destruímos sua cerca sem má intenção. Agora temos que pagar, que indenizar o senhor. Assim o assunto fica encerrado, O senhor fala é tanto, e nós pagamos.
— Quero a minha cerca — respondeu o velho. Ao mesmo tempo em que levava a mão à barriga murcha. Seu rosto estava começando a suar
— Pra mim este papo tá furado — disse Cainca; foi até a Rural e apanhou a sacola que estava dependurada na porta aberta.
— Larga isso aí — ordenou o velho
— Largar, é? — Cainca enfiou a alça no pescoço.
Um momento — pediu o Dr. Fontes, e encaminhou-se para Cainca
— Cainca, você está piorando a situação.
— Desculpe, doutor, mas estou puto da vida.
— Eu sei, rapaz. Deixe a sacola aí até a gente chegar a um acordo.
— Dr. Fontes, por favor: o senhor e o Moacir conversam com ele. Eu vou só conferir as linhas.
Cainca ajeitou a sacola, deu as costas para o velho, desceu o pequeno barranco até alcançar a margem do Paraopeba. Começava a entardecer, e os últimos raios de sol reverberavam na água encachoeirada. Olhei para o Dr. Fontes e vi que tínhamos pensado a mesma coisa.
— Bem—disse ele para o velho. — Vamos dar uma pescada enquanto o senhor decide.
— Pescada? — O velho estava tenso, com o rosto um pouco mais pálido e molhado de suor.
— Olha— explicou o Dr. Fontes apanhando o molinete encostado à barraca. — O que nós podemos fazer é isso: pagar a cerca. Não podemos fazer mais nada. Queira desculpar.
Apanhei o caixotinho de minhocuçu e segui o Dr. Fontes, que já se encaminhava para o rio.
— Pára ai— gritou o velho, com o cavalo virado em nossa direção e a espingarda à altura do ombro.
Paramos no topo do barranco.
— O senhor não vai fazer uma bobagem — disse o Dr. Fontes.
— Pare — ordenou novamente, embora já estivéssemos parados. A espingarda tremia em suas mãos e seu rosto estava incrivelmente desbotado.
— Calma — Dr. Fontes ergueu a mão. — O senhor não vai atirar na gente por causa de três pedaços de pau.
Caínca subiu o barranco e veio para o nosso lado:
— Porra, será que o velho ai querendo foder a gente?
— Fica quieto — disse eu.
—Acho que nós temos — ia dizendo o Dr. Fontes, quando vimos a espingarda cair e, logo em seguida, o velho levantar os braços espasmódicos altura do peito, desprender-se do cavalo, tombar de cabeça no chão, Ficando com um dos pés agarrado no estribo.
Cainca precipitou-se para o cavalo e segurou as rédeas. Dr. Fontes amparou o corpo do velho, que agora estava sem chapéu, enquanto eu retirava sua botina do estribo. Dr. Fontes estendeu-o no chão, O corpo do velho tremia e, dentro da bocarra, de dentes podres e poucos, a língua parecia que estava dando um nó. Quietou-se em seguida, os olhos esbugalhados.
Dr. Fontes sentiu o pulso e depois pôs o ouvido no peito do velho e procurou escutar. Ergueu-se contrariado.
— Puta merda — disse ele.
— Por Deus — disse eu. — Tem certeza?
— Puta merda, se tenho.
— Olha de novo, doutor.
— Não há mais nada para olhar — disse o Dr. Fontes.
Cainca largou as rédeas do cavalo e foi logo juntando as nossas coisas que andavam pelo chão.
— Sacanagem — disse o Dr. Fontes, dirigindo-se pata a barraca.
Enquanto Cainca recolhia as varas na beira do rio, ajudei o Dr. Fontes a desmanchar a barraca e dobrar a lona. Pusemos tudo dentro da Rural. Olhamos para o cavalo de cabeça baixa, omisso. Olhamos para o velho esparramado no chão, com os olhos fixos no céu todo azul, sem uma única nuvem. Olhamos em volta para ver se havia mais alguma coisa para recolher. Estava tudo certo.
— E agora, doutor? — disse eu.
— Agora?
— O que é que vamos fazer?
— Foda-se — disse o Dr. Fontes entrando na Rural.
Wander Piroli
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Voz errada
Conforme a crise financeira mundial se aprofundou em
2010, os executivos de um banco de abrangência mundial foram
investigados por enganar seus clientes com relação ao risco envolvido em
certos investimentos que estavam vendendo.
Apesar de prometerem uma alta taxa de retorno, a
empresa sabia que os investimentos estavam destinados ao fracasso,
deixando aqueles que os compraram com as mãos vazias.
No fundo, no fundo todo mundo sabe que não existe dinheiro fácil. Então, por que insistimos em seguir a voz errada?
Prof. Menegatti
Velho tema II
Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.
Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.
Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.
Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.
Vicente Augusto de Carvalho
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.
Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.
Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.
Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.
Vicente Augusto de Carvalho
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Em proposta de delação, Santana relata que Dilma sabia de tudo
Marqueteiro vai contar aos procuradores que petista não só conhecia
todas as operações de caixa dois da campanha presidencial como as
autorizou
João Santana: o homem que construiu a imagem de Dilma Rousseff agora se
prepara para fulminá-la (Rodolfo Buhrer/File Photo/Reuters)
A presidente afastada Dilma Rousseff vem ajustando seu discurso de acordo com o avanço da Lava-Jato. Há cerca de um ano, diante das acusações de que sua campanha recebera doações por fora da construtora UTC, ela afirmou: “Eu não aceito e jamais aceitarei que insinuem sobre mim ou a minha campanha qualquer irregularidade (…) porque não houve”.
De lá para cá, as negativas da petista ganharam um tom cada vez mais baixo.
Há duas semanas, após o marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica
Moura, admitirem ter recebido dinheiro pelo caixa dois na campanha
presidencial de 2010, Dilma disse: “Não autorizei pagamento de caixa dois a ninguém. (…) Se houve, não foi com meu conhecimento”. Cinco dias depois, eis que surge outra justificativa: “Minha
campanha não tem a menor responsabilidade sobre em que condições
pagou-se dívida remanescente da campanha de 2010. (…) Ele (João Santana)
tratou essa questão com a tesouraria do PT”.
Em pouco tempo, a negativa da existência de dinheiro sujo saltou do “eu não sabia” e pousou no “a culpa é do partido”.
Em breve, Dilma terá de atualizar a versão. Em sua proposta de delação premiada feita à Procuradoria-Geral da República, João
Santana e sua mulher relatam que a presidente afastada não só sabia da
existência do caixa dois como aprovou as operações ilegais.
Segundo o casal, Dilma conhecia detalhes do custo real da campanha e o valor que era declarado oficialmente. A diferença, de algumas dezenas de milhões de reais, vinha de empresas envolvidas no petrolão. Uma parte dos recursos, oriundos de propinas avalizadas pela petista, foi usada até para pagar despesas pessoais da presidente. Para comprovar as acusações, que constam em mais de dez capítulos chamados de “anexos”, Santana apresentará documentos. Os detalhes do acordo do marqueteiro foram tratados recentemente numa reunião realizada com integrantes da PGR. Quem leu os anexos garante: o mago do marketing petista, que ajudou a construir a imagem de Dilma, está agora armado com provas para fulminá-la.
Thiago Bronzatto
Veja
Brasil profundo
Leonardo mora em Jordão, menor cidade em IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano) do Estado do Acre. Vem logo a baixo de Marechal Thaumaturgo, que
não se difere de centena de outras cidades pequenas, atrasadas e pobres
deste Brasil. Ao acordar com um antigo despertador Alarm Clock, Swiss
Made, fez sua barba com um aparelho gillette proglide styler, em baixo
de uma ducha Hydra -ThermoSystem, vestiu seu jeans, e camiseta All Star,
calçou seu tenis Nike, e foi tomar café na copa, onde o rádio vitrola
RCA-Victor tocava Mille Davis. Pegou na geladeira brastemp clean all
refrigerator frost free 330 litros, uma embalagem tetra-pak de leite
light, colocou numa caneca com Corn Flakes, aqueceu no micro-ondas
Panasonic, e esse foi seu café da manhã. Pegou a chave do seu velho
Ford, e lembrou que precisava passar no borracheiro para apanhar o pneu
Goodyear do estepe. No caminho passou pela modestíssima venda de secos e
molhados do Geraldão, que havia mandado pintar, nos cinco metros da
fachada, o pomposo nome Big Shopping Geraldão. Esse é o Brasil profundo.
Eduardo P. Lunardelli
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Jeitos nordestinenses
A gente fala muito das
palavras nordestinas típicas, coisas como oxente, arretado, paidégua, rubacão,
alpercata, petisqueiro... Mas existem expressões mais longas, frases-feitas,
modos-de-dizer, que são a cara da nossa maneira de falar. Aqui vão mais
algumas. Sempre, é claro, com a ressalva de que provavelmente não são
exclusividade do Nordeste. Podem muito
bem ser usadas há muito tempo em outras regiões e eu é que estou desinformado.
Por outro lado, a TV, o cinema e a internet já estão se encarregando há muitos
anos de disseminar nossos regionalismos, e hoje a gente tanto escuta um
nordestino dizendo “Ô meu!”, porque acha bacana, quanto um paulistano dizendo
“Esse menino!” porque acha bacana também.
Então bora lá.
TEMPO DO RONCA
Tempo antigo, remoto, a perder de
memória. "Ah, isso é coisa do tempo
do ronca, ninguém liga mais pra isso não!"
O
"Badalo" é uma terra que tem, aqui em Taperoá, e que só dá
doido! A velha Maria Galdina é de lá, e
vive cantando umas modas-antigas, umas cantigas-velhas, do tempo do ronca e de
Dom Pedro Cipó-Pau!
(Ariano
Suassuna, Romance da Pedra do Reino, Folheto
LXXV)
SE FOR BOM É MEU!
Diz-se esta fórmula mágica
sempre que duas pessoas pronunciam simultaneamente, por acaso, a mesma palavra
no meio da conversa. É tipicamente uma
“simpatia verbal” de moças para adivinhar namoro futuro. Ao soar a palavra, uma
delas exclama: “Se for bom é meu!”, aí contam quantas letras tem a palavra,
fazem a relação desse número com o alfabeto (1=A, 2=B, etc.), obtendo assim a
inicial do provável namorado.
AINDA SE USA
Expressão
para cobrar de
alguém a utilização de alguma fórmula habitual de polidez. "Êi,
moço!... Vai entrando assim, sem mais nem menos? Com-licença ainda se
usa!" "Ôi, e nem me agradece, nem nada? Muito-obrigado ainda se usa!"
...E DANOU-SE
Complemento habitual para
qualquer número impreciso. Uma espécie
de aditivo de quantidade, em expressões como "O pai dele perdeu um milhão
e danou-se, na seca do ano passado."
Bernadete
vivia com Djanira, rapaz. Aquele
mulheraço do Grupo Porta-Voz. Faz
teatro, ela. Tem um metro e danou-se. Os peitos, ó.
A bunda desse tamanho, e pernas e coxas avassaladoras.
(Ricardo
Soares, Nadir, Ed. do Autor, Campina
Grande, 1975, pag. 96-97)
Também se usa: "... e
bote-força". "Não, não sei a idade dele... acho que tem uns trinta e
bote-força. “Fulano ficou de passar lá em casa às dez da manhã, mas quando
apareceu já era meio-dia e bote força”.
SE NÃO FÔR, EU ESTRALE
Usa-se como reforço para
uma afirmativa qualquer. É uma variação sobre a forma mais anódina “Se não fôr,
eu me dane”. “Aquilo é Fulano, lá na
curva da estrada! Olha o jeito de
andar... Se não fôr ele, eu
estrale!” Variantes: “Se não fôr, eu
pipoque!” “Se não fôr, eu estoure! [pronúncia:
“estóre”]”, "Se não fôr, eu choche!" (pron.:
"chóche"].
AMARRE O BURRO ONDE O DONO DO BURRO MANDA
Ao executar um serviço para alguém, deve-se
obedecer sem discussão às ordens do “cliente”, sem questionar sua validade ou
seu propósito. “Eu sei que tem cerveja
gelada, mas me mandaram comprar cerveja quente.
Amarre o burro onde o dono do burro manda.” R. Magalhães Jr. registra: “Amarrar o burro à
vontade do dono” (Dicionário de
Provérbios e Curiosidades. São Paulo: Cultrix, 1964 (2ª edição).
CANTAR O COCO
Diz-se da agitação tormentosa de quem sofre
uma dor insuportável. “Foi chupar
confeito, e um pedacinho caiu no buraco do dente -- deu-lhe uma dor que ele
cantou o coco por mais de uma hora.”
CARA LISA
Cara-de-pau; cara cínica. “Deixe de cara-lisa, eu tenho certeza de que
quem espalhou esse boato foi você.”
“Fulano já me deve dinheiro, e ontem veio pedir mais, com a cara mais
lisa desse mundo.”
TRANQUILO E CALMO
Locução adverbial que significa "com
certeza absoluta, sem a menor dúvida".
"Pode deixar que eu já falei com o Prefeito, e seu emprego vai
sair, tranquilo e calmo". Às vezes
a frase leva a supor que a função é adjetiva: "Não se preocupe não, velho,
que a gente vai ganhar esse jogo tranquilo e calmo"; mas a intenção de
quem fala não é de prever que o time terá uma vitória tranquila, e sim a de
dizer que, por mais difícil ou conturbado que venha a ser o jogo, o time não
deixará de ganhar.
TIRAR O CORPO
Ir embora; cair fora. "Acho melhor a gente tirar o corpo e ir
beber noutro canto, está chegando aí uma turma meio barra pesada." No resto do Brasil, existe o equivalente
“tirar o time”. O imperativo "Tira
o corpo!" tem a mesma função de
"Cai fora!".
-- Certo. Tem
medo de Nadir, né? Pronto. Chegou ela. -- O muito esperado por
ambos. Nadir mostrou-se aborrecida. Trazia outra cerveja.
-- Eu tava
convidando ele pra farinhada na casa do meu cabeludo, Nadir.
-- Tira o
corpo, Ivonete.
(Ricardo
Soares, Nadir, pag. 28)
SEU MENOR CRIADO
Expressão de deferência, meio em desuso,
quando se oferece os préstimos a uma pessoa de respeito. "Muito prazer,
sou Fulano de Tal, seu menor criado".
Quando eu cheguei na fazenda
vi logo um homem deitado
apertou-me a mão e disse
sou um seu menor criado
poeta e cantador
João Barraca, falado.
(Severino Borges da Silva, Peleja de Severino Borges com João Barraca)
Me
diga como vai sua distinta família
Como vai aquela jóia que é sua linda filha
Como vai seu filho, tipo do rapaz perfeito
E sua senhora, lhe transmito meu respeito
Amigo velho, foi prazer ter lhe encontrado,
Eis aqui um forte abraço desse seu menor criado
(Rosil
Cavalcanti, “Amigo Velho”, gravação de Luiz Gonzaga)
Bráulio Tavares
Mundo Fantasmo
Almoço mineiro
Éramos dezesseis, incluindo quatro automóveis, uma charrete, três diplomatas, dois
jornalistas, um capitão-tenente da Marinha, um tenente-coronel da Força Pública, um
empresário do cassino, um prefeito, uma senhora loura e três morenas, dois oficiais de
gabinete, uma criança de colo e outra de fita cor-de-rosa que se fazia acompanhar de uma
boneca.
Falamos de vários assuntos inconfessáveis. Depois de alguns minutos de debates ficou assentado que Poços de Caldas é uma linda cidade. Também se deliberou, depois de ouvidos vários oradores, que estava um dia muito bonito. A palestra foi decaindo então, para assuntos muitos escabrosos: discutiu-se até política. Depois que uma senhora paulista e outra carioca trocaram idéias a respeito do separatismo, um cavalheiro ergueu um brinde ao Brasil. Logo se levantaram outros, que, infelizmente, não nos foi possível anotar, em vista de estarmos situados na extremidade da mesa. Pelo entusiasmo reinante supomos que foram brindados o soldado desconhecido, as tardes de outono, as flores dos vergéis, os proletários armênios e as pessoas presentes. O certo é que um preto fazia funcionar a sua harmônica, ou talvez a sua concertina, com bastante sentimento. Seu Nhonhô cantou ao violão com a pureza e a operosidade inerentes a um velho funcionário municipal.
Mas nós todos sentíamos, no fundo do coração, que nada tinha importância, nem a Força Pública , nem o violão de seu Nhonhô, nem mesmo as águas sulfurosas. Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão. O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primitivo dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável.
É inútil dizer qualquer coisa a respeito dos torresmos. Eram torresmos trigueiros como a doce amada de Salomão, alguns louros, outros mulatos. Uns estavam molinhos, quase simples gordura. Outros eram duros e enroscados, com dois ou três fios.
Havia arroz sem colorau, couve e pão. Sobre a toalha havia também copos cheios de vinho ou de água mineral, sorrisos, manchas de sol e a frescura do vento que sussurrava nas árvores. E no fim de tudo houve fotografias. É possível que nesse intervalo tenhamos esquecido uma encantadora lingüiça de porco e talvez um pouco de farofa. Que importa? O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro, com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo, como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo ouro. Os torresmos davam uma nota marítima, salgados e excitantes da saliva. O tutu tinha o sabor que deve ter, para uma criança que fosse gourmet de todas as terras, a terra virgem recolhida muito longe do solo, sob um prado cheio de flores, terra com um perfume vegetal diluído mas uniforme. E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve — do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para a nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas.
Era o encanto de Minas.
Falamos de vários assuntos inconfessáveis. Depois de alguns minutos de debates ficou assentado que Poços de Caldas é uma linda cidade. Também se deliberou, depois de ouvidos vários oradores, que estava um dia muito bonito. A palestra foi decaindo então, para assuntos muitos escabrosos: discutiu-se até política. Depois que uma senhora paulista e outra carioca trocaram idéias a respeito do separatismo, um cavalheiro ergueu um brinde ao Brasil. Logo se levantaram outros, que, infelizmente, não nos foi possível anotar, em vista de estarmos situados na extremidade da mesa. Pelo entusiasmo reinante supomos que foram brindados o soldado desconhecido, as tardes de outono, as flores dos vergéis, os proletários armênios e as pessoas presentes. O certo é que um preto fazia funcionar a sua harmônica, ou talvez a sua concertina, com bastante sentimento. Seu Nhonhô cantou ao violão com a pureza e a operosidade inerentes a um velho funcionário municipal.
Mas nós todos sentíamos, no fundo do coração, que nada tinha importância, nem a Força Pública , nem o violão de seu Nhonhô, nem mesmo as águas sulfurosas. Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão. O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primitivo dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável.
É inútil dizer qualquer coisa a respeito dos torresmos. Eram torresmos trigueiros como a doce amada de Salomão, alguns louros, outros mulatos. Uns estavam molinhos, quase simples gordura. Outros eram duros e enroscados, com dois ou três fios.
Havia arroz sem colorau, couve e pão. Sobre a toalha havia também copos cheios de vinho ou de água mineral, sorrisos, manchas de sol e a frescura do vento que sussurrava nas árvores. E no fim de tudo houve fotografias. É possível que nesse intervalo tenhamos esquecido uma encantadora lingüiça de porco e talvez um pouco de farofa. Que importa? O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro, com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo, como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo ouro. Os torresmos davam uma nota marítima, salgados e excitantes da saliva. O tutu tinha o sabor que deve ter, para uma criança que fosse gourmet de todas as terras, a terra virgem recolhida muito longe do solo, sob um prado cheio de flores, terra com um perfume vegetal diluído mas uniforme. E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve — do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para a nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas.
Era o encanto de Minas.
Rubem Braga
Moeda especial de 5 euros presta homenagem a Senna na Europa
Série limitada com imagem do piloto brasileiro terá 8 mil unidades produzidas
As homenagens pelos 20 anos da morte de Ayrton Senna
continuam na Europa. Uma moeda especial de 5 euros com uma imagem do
piloto brasileiro foi lançada esta semana pela Agência Autônoma de
Filatelia e Numismática do governo de San Marino. Apenas 8 mil unidades
da série limitada serão produzidas. Cada moeda custa 49,90 euros, o
equivalente a R$ 150. Os interessados podem enviar um e-mail para a
agência: info.ufn@pa.sm.
A moeda pesa 18 gramas, tem 32
milímetros de diâmetro e exibe um retrato de Senna junto à Williams
FW16, de um lado, e o brasão de armas de San Marino do outro. A peça
mostra ainda a inscrição AYRTON SENNA 1994/2014, em referência ao
trágico acidente do GP de San Marino de 1994, que tirou a vida do
tricampeão mundial. A arte foi criada pelos designers Marcio Petta e
Antonella Napolione.
Por GloboEsporte.com San Marino
Charada na aula
O Juquinha pergunta para a professora:
- Professora, como se faz pra colocar um elefante na geladeira?
E a professora:
- Não sei... Como é?
- Abre a porta da geladeira e coloca ele lá. E como se faz pra colocar uma girafa dentro da geladeira?
A professora se achando esperta responde:
- Abre a porta e coloca ela lá...
- Não professora, primeiro tem que tirar o elefante que está lá e depois colocar a girafa.
A professora faz uma careta.
- Professora! - diz Juquinha. O leão, rei da floresta, fez uma festa, e todos os animais foram, menos um. Qual era?
- Não sei, Juquinha...
- A girafa. A coitada ainda estava na geladeira!
A professora dá uma risadinha.
- Professora!
- QUE É, JUQUINHA?
- Como se faz pra atravessar um rio cheio de jacarés?
- Pega um barco e atravessa, Juquinha.
- Não, atravessa nadando.
- Mas e os jacarés, Juquinha?
- Tão na festa do leão!
domingo, 31 de julho de 2016
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